terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Parte 6 - Tour Nordeste 2014 - Estação Biológica de Canudos/BA


03/10/2014 (sexta-feira) - Canudos/BA

Pela manhã, ainda em Crato, a Claudia Brasileiro havia acordado com cara do Sloth dos Goonies. O Weber Girão, nosso amigo e um dos gestores do Projeto de Preservação do Soldadinho-do-araripe, indicou um médico amigo dele, Dr. Alexandre, oftalmologista, que receitou um colírio lubrificante e disse que mesmo ela estando uma monstrinha (palavras da Cláudia), o vírus tinha parado e não chegaria aos olhos.

Orientou que ela fugisse do sol, porque "senão ele poderia resolver brigar com o remédio (adora sol) e poderia deixar o rosto dela marcado". Ele garantiu que o pior já tinha passado e que a Cláudia podia continuar viagem. De acordo com ela, a pior parte foi abdicar da cerveja, disse que doeu mais do que o inchaço do rosto...bem ela mesmo rs rs rs.

Passamos o resto do dia todo nos deslocando em direção a Canudos, quase 400 km. No caminho (Abaré/BA) pude registrar o Pernilongo-de-costas-negras (Himantopus mexicanus) em solo brasileiro, pois eu tinha uma única imagem tosca feita na Flórida (EUA).


Pernilongo-de-costas-negras (Himantopus mexicanus)

Atravessamos o Estado de Pernambuco e chegamos ao nosso destino, a Estação Biológica de Canudos - EBC. Ficamos hospedados no Biodiversitas

A Estação Biológica de Canudos é uma reserva biológica particular, com área de 1477 hectares, localizada no sertão do estado da Bahia. Pertencente à ONG Biodiversitas, a reserva foi criada em 1989 com a finalidade de garantir a preservação da Arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari). 

É uma das espécies de aves menos conhecidas e mais ameaçadas de extinção no Brasil. Estima-se que atualmente existam apenas cerca de 450 indivíduos na natureza, além de 38 em cativeiro. Esta ave é endêmica da caatinga baiana, e encontra-se protegida na EBC. Ver último censo aqui.

O quadro de funcionários permanentes na Reserva inclui uma bióloga, responsável pela administração local da EBC, e três guarda-parques em tempo integral, cujas funções incluem a fiscalização da área e a coleta de dados biológicos sobre as araras. Estes quatro funcionários são pessoas nascidas em Canudos, o que confere à EBC maior integração com a comunidade local e maior acesso da população às informações sobre a espécie e a reserva.

Arara-azul-de-lear  (Anodorhynchus leari)

A Estação abriga os paredões que servem de dormitório e área de nidificação para a espécie. Entre as causas de ameaça à Arara-azul-de-lear, destacam-se a captura para o comércio ilegal de animais silvestres e a destruição de seu habitat, especialmente as palmeiras licuri, cujo fruto é a principal fonte de alimento da espécie. Nos períodos de baixa produtividade de licuris, elas atacam as roças de milho causando prejuízos aos pequenos agricultores que utilizam o milho para subsistência e para alimentar seus animais. Como consequência dos ataques aos milharais, os agricultores chegam a atirar nas araras, por vezes ocasionado a morte da ave ou, em alguns casos, a amputação de partes do corpo, impossibilitando sua sobrevivência em vida livre. 

Os paredões de nidificação das araras - Canudos/BA
Recentemente foi desenvolvido um Programa de Observação de Aves na EBC, integrando o Programa de Conservação da Arara-azul-de-lear, onde observadores oriundos de todos os lugares do mundo hospedam-se na própria Reserva com a finalidade específica de ver as araras. O alojamento possui seis suítes, muito confortáveis e amplas, com capacidade para receber até 12 pessoas e uma casa de convivência, onde são oferecidas refeições matinais e os hóspedes têm a oportunidade de conhecer os sabores da culinária local. Toda a infraestrutura do alojamento foi construída sob a ótica socioambiental. A obra priorizou a utilização de matéria prima local, tijolos ecológicos - sem queima e, conseqüentemente, sem emissão de C02 - e mão de obra local. Esta obra foi realizada com o apoio da American Bird Conservancy. A Estação é mantida pelo Fundo Judith Hart.
 
O alojamento
Na EBC conhecemos a simpática bióloga Tania e seu esposo Genivaldo Macedo, mais conhecido como Caboclo - um dos três guarda-parques. Embora a EBC não disponha de energia elétrica, portanto, o banho é frio e falta energia para recarregar as baterias dos equipamentos, Tania nos ofereceu uma estadia digna de princesas. O café da manhã preparado pela bióloga é algo de outro mundo. Só isso já valeu a viagem.

O cenário parece pertencer ao Planeta Marte. Mas o espetáculo todo fica por conta das Araras-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), que ao amanhecer o dia partem em bando para se alimentar, deixando os espectadores extasiados. Foi o lugar onde menos espécies eu avistei, mas que deixou uma marca profunda e prazerosa na minha memória. E quem nos acompanhou aos vermelhos paredões foi o Caboclo, nascido e criado nessas terras, onde também fincou suas raízes, construindo com a bióloga Tania o seu pequeno núcleo familiar.



O Caboclo e a Claudia
Eu, o Caboclo e a Rosemarí

Logo que chegamos, num rápido reconhecimento do terreno fiz meu primeiro lifer, o intrépido Papa-moscas-do-sertão (Stigmatura napensis). Já estávamos ficando quase sem luz no local, o que nos fez encerrar a observação de aves do dia.


Papa-moscas-do-sertão (Stigmatura napensis)

É para ir dormir depois com a alma lavada, e lavada rapidamente, eh eh eh, até porque sem energia, o banho foi gelado e à luz de velas ... Jantamos na pequena cidade de Canudos e caímos na cama, ansiosas pelo dia seguinte.

Últimos raios de sol refletindo sobre os paredões
Arco - íris com tele
Foto panorâmica by Ciro Albano

04/10/2014 (sábado) – Canudos/BA

De manhã cedinho, ainda escuro, com o tempo um pouco fechado, visitamos os paredões de nidificação/dormida da Arara-azul-de-lear  (Anodorhynchus leari). 

Às 5:10h da matina comecei meus primeiros cliques. Às 6:42h fiz a última foto das araras num total de 532 (essa conta só contempla as fotos boas, fora as deletadas). Essas araras não tem para ninguém. É um espetáculo do outro mundo. Você fica horas apreciando e não enjoa... Elas vão e voltam aos paredões diversas vezes, numa algazarra medonha. Coisa mais linda do mundo. É surrealista.

No início ficamos longe para fazer as fotos. O Ciro, cavalheiro como sempre, me cedeu sua lente 500 mm (que na Canon 7D vai para 800 mm) para que pudesse fazer fotos mais bacanas do que minha pequena 300 mm era capaz de fazer. O céu foi clareando e fomos nos aproximando. Fizemos belíssimas fotos. O duro é o tempo por ali, que é muito instável. De repente começou chuviscar e engrossou. Tivemos que interromper nossa farra arara-ornito-fotográfica.

"As muié" - foto by Ciro Albano
Claudia e eu - foto by Ciro Albano
Bando de Arara-azul-de-lear  (Anodorhynchus leari)
Bando de Arara-azul-de-lear  (Anodorhynchus leari)
Bando de deslumbrados: Ciro, Claudia, eu e Rosemarí - by self-timer
Voltamos à Reserva para nos deliciar com o maravilhoso café da manhã preparado pela Tânia. Depois saímos caminhar ao redor da sede a procura de mais alguns bichinhos. O único digno de nota a se apresentar para nossas lentes foi o Alegrinho-balança-rabo  (Stigmatura budytoides), um bichinho miudinho e gracioso. Parece uma bolinha de penas.

Alegrinho-balança-rabo  (Stigmatura budytoides)
A caatinga nos presenteia com cenas espetaculares, um visual estonteante e um colorido ímpar. Sejam aves, paisagens, flores, insetos, tudo é muito bonito e diferente. A flora da caatinga é tão marcante na paisagem que dela derivou o próprio nome do bioma (caatinga, do tupi = mata branca), assim chamada pelos índios pela sua característica, a de perder as folhas no período de estiagem, exibindo um emaranhado de troncos tortuosos e esbranquiçados.

Lado a lado com a caatinga
Quipá ou guibá, palmatória, palmatória-miúda, palminha (Tacinga inamoena)
Beleza de florzinha (não sei o nome)
Flor do quipá
Em seguida, não sem dor no coração, partimos, iniciando uma longa jornada (+ de 7 horas) para a Chapada Diamantina. Foram 500 longos km até lá. No caminho, uma paradinha para admirar um espetáculo às margens da estrada. Centenas de Garças-vaqueira (Bubulcus íbis) pousadas no mato, proporcionando um verdadeiro deleite aos olhos. Um bando gigante, como eu nunca tinha visto. Isso foi em Lamarão/BA.

Garça-vaqueira (Bubulcus íbis)
Garça-vaqueira (Bubulcus íbis)
Chegamos tarde na cidade de Lençóis. Jantamos e fomos nos preparar para no dia seguinte conhecer a famosa Chapada Diamantina. 

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Links para as demais partes

Parte 1 - Tour Nordeste 2014 - Viagem colírio para os meus olhos e delírio para as minhas lentes
Parte 2 - Tour Nordeste 2014 - Delta do Parnaíba/PI
Parte 3 - Tour Nordeste 2014 - Serra do Baturité - Guaramiranga/CE
Parte 4 - Tour Nordeste 2014 - Quixadá/CE 
Parte 5 - Tour Nordeste 2014 - Chapada do Araripe - Crato/CE – Barbalha/CE
Parte 6 - Tour Nordeste 2014 - Estação Biológica de Canudos/BA 
Parte 7 - Tour Nordeste 2014 - Chapada Diamantina - Lençóis/BA
Parte 8 - Tour Nordeste 2014 - Parque Nacional de Boa Nova /BA
Parte 9 - Tour Nordeste 2014 - Reserva Serra Bonita - Camacan/BA
Parte 10 - Tour Nordeste 2014 - Reserva Veracel - Porto Seguro/BA - Santa Cruz Cabrália/BA 


Texto e a maioria das fotos: Silvia Faustino Linhares 

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