segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

As duas primeiras passarinhadas de 2018 - Dourado e Itatiaia

Preâmbulo

Resolvi relatar as duas primeiras passarinhadas deste ano num único post. A primeira foi pra Dourado/SP (de lá à Mineiros do Tietê e Olímpia) com o guia e amigo Cal Martins. A segunda para a região de Itatiaia (de lá à Angra dos Reis e Paraty) com o guia e amigo Hudson Martins Soares.

Fotos: by Cal Martins e Hudson Martins Soares

Ambas finalizadas com o sucesso esperado. Uma longa caminhada começa com o primeiro passo, já dizia o pensador Lao-Tsé. Estou muito feliz de partir das 1400 espécies fotografadas em direção às 1500, número que pretendo atingir até 31 de dezembro deste ano, preenchendo com um X a lista de aves do CBRO* (v. 2015) que totaliza 1919 espécies, destas apenas 1871 fotografadas e postadas no site Wikiaves. A próxima lista deve aumentar  muito devido ao número de subespécies que alcançarão o estatus de espécie plena.

*O CBRO reconhece no Brasil 1919 espécies, das quais 30 carecem de documentação física e constituem a lista secundária.

Parte I - Dourado e Olímpia - As andorinhas voltaram... Saiba como foi colocar três espécies na minha lifer-list logo no início de 2018

23/01/2018 – terça-feira

Saí de São Paulo por volta das 10:00h da manhã e cheguei em Dourado em torno das 14:00h (283 km). Descansei um pouco e lá pelas 17:00h eu e o Cal fomos tentar a saracura-lisa (Amaurolimnas concolor). Esta vocalizou muito, fez a gente esperar escurecer, entrar no meio do brejo, mas não deu as caras.  Fui dormir tristinha, pois não era a primeira vez que isso acontecia. Experimentei o mesmo sentimento de frustração das outras vezes que tentei essa "saracura-escorregadia".

Saindo de São Paulo para acessar a Rodovia dos Bandeirantes - congestionamento básico

Eu e o Cal lanchando após a tentativa de foto da saracura-lisa

24/01/2018 – quarta-feira

Durante a noite choveu pesado e eu fiquei receosa que estragasse a passarinhada do dia seguinte. Levantei 3:30h da manhã e 4:00h já estava pegando o Cal, que fez um cafezinho delicioso pra gente. Seguimos até Barra Bonita (67 km), ora sob chuva, ora seco, onde chegamos mais cedo do que combinamos com o amigo Glauco Tonelli, que nos levaria para ver as andorinhas em Mineiros do Tietê (23 km +/-).  Paramos numa padaria e assim que vi o Glauco comentar alguma coisa no meu Instagram, seguimos até a casa dele. Em seguida partimos para o nosso destino. 

Chegando ao local, começamos a procurar as andorinhas, mas nem sinal delas. Tempo nublado e bem feio. Estava me dando um desânimo danado quando elas começaram a chegar. Primeiro um bandinho pequeno de Andorinha-de-bando (Hirundo rustica). Depois vimos algumas Andorinhas-de-dorso-acanelado (Petrochelidon pyrrhonota) no meio. 

Na esquerda Andorinhas-de-bando e na direita Andorinhas-de-dorso-acanelado

O Cal saiu rodar o condomínio atrás da Andorinha-do-barranco (Riparia riparia), objetivo principal da nossa ida, enquanto eu fiquei fazendo melhoraifer das outras duas. E finalmente quando achou, veio correndo nos chamar. Eis então que avisto minha primeira Andorinha-do-barranco (Riparia riparia). 

O momento em que o Cal me mostrava a primeira Andorinha-do-barranco - foto by Glauco
Andorinha-do-barranco
Há anos que a procuro. Aí foi uma festa. O difícil foi parar de fotografar aquelas milhares de andorinhas chegando e enchendo os fios. 

Eu by Glauco Tonello

Um deleite para os olhos. Chegamos a contar oito andorinhas-do-barranco. Um espetáculo bonito de se ver. Eu cliquei no local seis espécies de andorinhas, o que foi muito legal. Até o céu ficou azul pra combinar. Foi bacana demais.


Na ordem: Andorinha-do-barranco (Riparia riparia), Andorinha-de-bando (Hirundo rustica), Andorinha-do-campo (Progne tapera), Andorinha-doméstica-grande (Progne chalybea), Andorinha-pequena-de-casa (Pygochelidon cyanoleuca) e Andorinha-de-dorso-acanelado (Petrochelidon pyrrhonota).

Meninos, só posso agradecer a vocês pela manhã tão iluminada e com fios pontilhados de andorinhas. Foi mágico. Foram mais de 2000 fotos e, dessas, pelo menos 1/4 ficaram formidáveis.

Cal, Glauco e eu

Depois de fotografar até dizer chega as andorinhas, no retorno a Dourado, demos uma passada por Itirapina (110 km). O objetivo era tentar novamente o papa-moscas-canela (ele vinha aparecendo pra todo mundo, mas não pra mim quando estivera lá em out/2017 com o Cal). Pelo menos naquele dia teve fotão do Galito (Alectrurus tricolor) pra compensar.

Galito (Alectrurus tricolor) foto de 27/10/2017

Ao chegar na fazenda onde ele costuma aparecer, umas poças fedorentas tomaram conta da estradinha e quase atolei. Melhor foi deixar o carro estacionado em segurança e seguir a pé. Óbvio que nem sombra do papa-mosca-canela, (que hoje ocupa o 1º lugar da minha lista negra). Aliás não havia sombra nenhuma, apenas o maior solão e muito calor. Caminhar horas, ora no areião, ora sobre pedras ou no meio do mato, sob um escaldante sol, fez nossos pés ficarem cheio de bolhas e o cansaço bater pesado.

Eu e Cal em Itirapina - "sorrindo pra não perder o amigo"
Quase desidratei com tanto calor (suspirava por uma geladinha o tempo todo). Voltei para o carro capenga. Paramos numa conveniência de um posto e eu tomei dois isotônicos de uma tacada só. Comi um salgado e aí comecei a melhorar. Gosto muito do cerrado, mas Itirapina é quase sempre muito penosa na época do verão. O que salvou a tarde foi uma linda coruja-buraqueira (Athene cunicularia), uma guaracava-de-topete-uniforme (Elaenia cristata) e um belo gaviãozinho (Gampsonyx swainsonii) dando mole.

coruja-buraqueira, gaviãozinho e guaracava-de-topete-uniforme

Chegamos em Dourado umas 17:00h (80 km) e fui logo descansar. Combinamos de sair às 19:00h para tentar de novo a "saracura-lisa-dos-meus-pecados". Seria a quinta tentativa que eu faria na vida atrás dessa “safadenha”. Quando saí do quarto, uma surpresa, o tempo estava feio, ameaçava vir um forte temporal. Ventava horrores. Eu quase desisti. Já estava um bocado nervosa quando chegamos lá. Ela respondeu de imediato e o Cal disse que estava no mesmo lugar do dia anterior, ou seja no meio do brejo, embrenhada ou melhor, "embrejada" até dizer chega. Eu só pensei: ai "meodelz", já vi esse filme antes. Entramos no brejo,  procura ali, procura acolá e nada. Senti o desespero tomando conta novamente.

Respirei fundo e pensei: ela virá, tenho certeza! Mais obstinado do que eu, o Cal não desanimou em nenhum momento. Tentou mais uma vez o playback já no escuro total e ela respondeu. Ele foi andando em direção de onde o som viera e entrou dentro do brejão atrás dela. Ao localizar, ele me chamou e pediu pra eu ir bem rápido. E aí imagina a cena: você sai feito maluca, anda, anda, anda, tropeça na lama, afunda a bota na água, se enrosca nos galhos, tudo no escuro, mas segue confiante, torcendo pra ela não ir embora antes de chegar lá.

E aí quando cheguei pertinho do Cal, ele me apontou a bichinha. Uma folha na frente dela só me permitia ver a carinha. O Cal deu um jeito de afastar a danada da folha e consegui uma foto bacana, fiz o melhor que pude diante do difícil local que ela se encontrava. Aí ela entranhou mato adentro e já era. Com ela registrada no cartão de memória, muito feliz, fui dormir satisfeita pela façanha. Saracura-lisa checked - riscada da minha lista negra. 
 
Saracura-lisa (Amaurolimnas concolor)

25/01/2018 – quinta-feira

Novamente levantei às 3:30h da madrugada. Busquei o Cal e lá fomos nós em direção ao noroeste paulista, para os lados de Olímpia e Guapiaçu (250 km). O objetivo? Fotografar o novo Aracuã (Ortalis remota), por enquanto ainda considerado subespécie da Ortalis guttata – aracuã-pintado.

*Veja artigo escrito pelo amigo ornitólogo Fabio Olmos a respeito dessa espécie aqui

Ele ainda não teve batismo oficial. Seu nome poderá ser “guarda-faca, jacu-cigano, aracuã paulista, aracuã-caipira ou aracuã-do-pinto em homenagem ao grande ornitólogo Olivério Pinto *.

* Ortalis guttata remota (Pinto, 1960) - distribui-se disjuntamente na região centro-sul do Brasil, no extremo sudoeste do Mato Grosso do Sul e noroeste de São Paulo (Lima, 2013). (Fonte: Wikiaves).

A onomatopéia da vocalização é essa: “guarda-faca vovô, tá na cara que eu vou!” Escute a vocalização dela, gravada pelo amigo Rodrigo Agostinho aqui

Estávamos num ponto onde o Cal levava pessoas para ver o bicho. De repente encostou um carro e para nossa surpresa era o casal de amigos, muito queridos, Rodrigo Agostinho e Cláudia Brasileiro. Juntos procuramos os aracuãs, que deviam estar longe do local e não responderam.

Claudia e Rodrigo by Silvia Linhares

O Rodrigo, que estava integrando à equipe de pesquisa da SAVE, apoiada pela Fundação Grupo Boticário, com vistas a levantar mais dados sobre a população da nova espécie no local, conhecia alguns pontos diferentes e nós o acompanhamos. No primeiro local que tentamos, os bichos responderam mas nem sombra. Sabe quando você fica com aquela cara de copo d’água morno e pra ajudar uma inchada cara de sono ... assim eu estava naquele momento. Aí você fecha os olhos, suspira fundo, toma uma xícara de café, que estava quentinha no carro, e toca em frente, cheia de confiança.
 
Rodrigo, Claudia, Cal e eu de frente para o sol (repara nas caretas kkkkk)

Seguimos pra um outro ponto e um casal respondeu. No que um deles mostrou-se um pouquinho, pimba, eu consegui uma fotinha pelo menos da cabeça. Seguimos uns 600 metros pela mesma estradinha e um casal deu chance de foto, embora tivesse longe demais para um maravilhaifer. O Cal não mediu esforços para tirar o capim braquiária da nossa frente para que a gente conseguisse melhorar o enquadramento e o bicho sair no limpo.
 
Rodrigo, Claudia e eu by Cal Martins

Aracuã (Ortalis remota)

Missão cumprida! Seguimos encontrar o restante da equipe da SAVE, os amigos Marco Silva e Carlos Gussoni. Após a confraternização, altos relatos, selfies, muitas risadas e um golinho de cerveja para comemorar (eu estava dirigindo buá buá buá), nos despedimos e seguimos nosso caminho, com parada para um lanche com suco no posto. Enfim, retorno a Dourado, feliz da vida.

Cal, Eu, Gussoni, Marco Silva, Rodrigo e Claudia

Claudia, Marcão e eu (O Marcão me imitando porque eu não podia beber a deliciosa cerveja que a Claudia trouxe)

Chegando em Dourado, deixei o Cal, fiz check-out no Hotel e toquei de volta pra casa, embora deteste dirigir à noite, a Rodovia dos Bandeirantes é nota 10 e deu pra chegar em casa tranquilamente, quase 22:00h. Rodei nesses dois dias e meio um pouquinho mais de 1.500 km. Coisa de louco para quem não está acostumada e não tem quase nenhuma experiência de estrada. Quem  conhece minha história, sabe do que estou falando. Foram dias maravilhosos, poder rever amigos, ser guiada pelo grande Cal Martins e registrar os bichos que eu queria, inclusive dois da black list. Isso não tem dinheiro que pague.

Parte II - Itatiaia e Paraty - mais três lifers e uma emoção de amolecer as pernas

30/01/18 – terça-feira

Uma semana depois de voltar da primeira passarinhada, peguei estrada novamente. Eu havia combinado com o guia e amigo Hudson Martins fazer uma passarinhada em Itatiaia (270 km) e região, tendo como objetivo principal fotografar três espécies e fazer um melhoraifer. Saí de São Paulo por volta de 11:00h e cheguei lá no meio da tarde. 

Eu by eu mesma dentro do Ruber Ramphocelus (meu Duster cor-de-sangue)

Fiz check-in na pousada Quatro Estações, cujo proprietário Fábio, sempre muito simpático, me recebeu como uma princesa. Gostei muito do local, que foi indicado pelo Hudson.

Eu, observando a paisagem da janela do meu quarto no hotel

Descansei um pouco e, em seguida, o Hudson me apanhou para irmos até Areias (a 53 km já em terras paulistas) para tentar meu melhoraifer: a Coruja-do-mato (Strix virgata). No entanto o tempo havia piorado e estava feio, chovendo bastante. No meio do caminho, depois de pagar o exorbitante  pedágio de R$ 14,40, resolvemos retornar, e tome mais um pedágio de R$ 14,40  no retorno. Foi uma frustração enorme e a maior preocupação era o dia seguinte, pois a chuva poderia inviabilizar nossa passarinhada e busca pelos lifers tão almejados.

Passamos no X-Totooso Lanches ( Itatiaia ) e meu jantar foi um delicioso X-egg, super leve e bem feitinho. Se pão com ovo já é bom, um hambúrguer bem caprichado com ovo e pão é melhor ainda.

Hudson e eu no X-Totooso Lanches

31/01/18 – quarta-feira

No dia seguinte, após a pousada servir um delicioso café em horário extraordinário, saímos logo cedo para a parte alta do PARNA Itatiaia a fim de tentar a Garrincha-chorona (Asthenes moreirae).


O tempo estava fechado, com muita neblina, caiam gotinhas de água, mas não havia sinal de que poderia chover forte. A bichinha apresentou-se rapidinho, porém um pouco longe para a foto perfeita. O luz não estava boa e apesar de ter se aproximado, não ficou parada nem um pouco. Sem chances de fazer uma boa foto por conta da neblina, seguimos para outro ponto. Consegui melhorar a foto que tinha feito, mas juro que essa ficou a me dever. Ainda volto com tempo bom pra melhorar.

Garrincha-chorona (Asthenes moreirae)

Clicando na neblina

Olha o Ruber lá no fundo

Subimos até a entrada do parque só para poder fazer umas fotinhas

Ao descer, vim clicando florzinhas e outros passarinhos que tinham por lá

Com o lifer no cartão, ainda ganhei de brinde, alguns vários bichinhos lindos, além da paisagem surreal da parte alta. Entre eles, beija-flor-de-papo-branco, beija-flor-rubi, borboletinha-do-mato, maria-preta-de-garganta-vermelha, maria-preta-do-bico-azulado, pintassilgo, tucão e tico-tico.


E o que dizer das flores. Uma mais linda que a outra, com gotículas como gosto.


O Hudson, preocupado com a chuva despencar na parte da tarde, sugeriu descer para a parte baixa a fim de tentar o segundo lifer: Tovaca-cantadora (Chamaeza meruloides). E no caminho, olha o guardião-carijó na divisa de Estados, digo, olha um lindo Gavião-carijó (Rupornis magnirostris).

Gavião-carijó (Rupornis magnirostris)

Não bastasse ter um guardião, no caminho, na parte mineira de Itamonte, encontramos o “Xerife”, um carcará que pensa que é o dono da estrada, só faltou perguntar: "onceispensaquetãoino?" 

Carcará (Caracara plancus)

Passamos no Bar do Miguelzinho, que fica bem na divisa de Minas com Rio de Janeiro, onde os donos, Nelsinho e seu filho Breno nos atenderam super bem. Eu comi um delicioso pastel, tão divino e delicioso que pedi mais um pra viagem...

Brincando pra foto... a pinga é emprestada do Miguelzinho

Tinha que ter uma foto aí, né?

Hudson e eu na divisa

Eu, Breno e o Hudson

Mas vamos à tovaca-cantadora (Chamaeza meruloides), esse é um bichinho difícil, quem tentou sabe como é, mas o Hudson tem um pacto com a bichinha e conhece cada passinho que ela dá. Só faltou desenhar o trajeto que ela iria fazer. Ela demorou a se aproximar, enquanto isso eu fiquei sentada olhando as redes sociais (eita vício "brabo"). Essa espera pareceu uma eternidade, mas no fundo não foi não. Rapidinho elas foram se aproximando. Uma cantava de um lado da estrada e outra do outro. 

Euzinha com o celular nas mãos.

De repente o Hudson me chama, pois lá vinha ela toda faceira. A bonitinha ficou andando de um lado para o outro, desfilando graciosamente na passarela idealizada pra ela. E eu fazendo foto até dar calo no dedo. O Hudson me deu todos os macetes dizendo quando clicar e quando permanecer imóvel. E finalmente ela chegou no tronquinho e bem no limpo. Aí foi bem rapidinho, clic clic e deixamos ela em paz.

Eu, conferindo a foto mais bonita dela.
Tovaca-cantadora (Chamaeza meruloides)
Veja abaixo neste vídeo algumas das imagens que o Hudson capturou neste dia.


Demos uma passadinha no Hotel Ypê, então pude beber uma Stella geladinha, uma vez que o Ruber (meu carro) fez amizade com o Hudson e nem queria mais saber de mim.

Paisagem enquanto tomava uma cerveja


Muitos Jacuaçus (Penelope obscura) caminhando pelo jardim do hotel, mas o que mais gostei foi clicar dois jovenzãos. Tão bonitinhos.

e um deles veio quase ao meu lado - foto by Hudson


Jacuaçu (Penelope obscura)

No caminho fiz lindas fotos do Entufado (Merulaxis ater), no limpo. Os cachês dos bichos estão em dia, porque eles atendem o Hudson que é uma maravilha.

Entufado (Merulaxis ater)

Voltamos para Pousada, descansei um pouquinho e partimos para Areias tentar a Senhora rainha-coruja-do-mato de novo, dessa vez com tempo bom. Mais pedágio exorbitante (ô coruja cara meu! kkkkk). Chegamos ao ponto e o Hudson começou a tocar o playback. E tá que chama essa danada e ela nada. De repente o Hudson passa a lanterna na parte do mato por detrás da gente. E ela sai voando, ou seja ela chegou quietinha e ficou só observando a gente. E aí, sumiu no mato.

Deu aquela sensação de frustração horrorosa, mas não desistimos. A noite estava bonita, sem vento, embora um pouco nublado, não deixando a gente ver a lua cheia enorme que vimos depois quando íamos embora.

Eis que depois de um tempo (que pareceu uma eternidade) a bela chega e pousa no galhinho que o Hudson esperava que ela pousasse. Aí foi só fazer foto foto foto foto foto. Eu estava sentada na cadeira quando ela se aproximou de novo, mas aproximou tanto, que tive que diminuir o zoom da lente de 400 para 300 e até menos 278 mm.

Nossa!!! Aí foi emoção de doer o coração e amolecer as pernas. Pensa que é brincadeira isso de pernas bambas? Que nada! Eu fui levantar pra acompanhar o voo dela, e sério, eu estava com as pernas moles e perdi o equilíbrio não caindo por pouco. Saí desequilibrando como se tivesse tropeçado. Detalhe: de costas!!! kkkkkkkkk Dava um belo vídeo-cassetada.

Pois bem, missão cumprida, bora voltar pra Itatiaia, passando pelo pedágio extorsivo novamente e indo direito pro X-Totooso Lanches. Nada como terminar a noite com um belo pão com ovo novamente.

Coruja-do-mato (Strix virgata)

01/02/2018 – quinta-feira

Acordei cedo e 5:00h da manhã já estávamos na estrada em direção à Angra dos Reis (142 km de curvas e caminhões lentos). Paramos numa padaria onde degustei um delicioso pão de queijo e tomei um café com leite (aqui em Sampa chamamos de média) e logo em seguida um cafezão forte para acordar de vez. No meio do caminho tivemos que fazer uma paradinha estratégica. Um Falcão-peregrino (Falco peregrinus). Ele nos espiou, espiou e eu só fotografando e depois voou.

Falcão-peregrino (Falco peregrinus)

Seguimos até nosso destino que era a divisa de Angra com Paraty. O objetivo era registrar o belíssimo e raro Formigueiro-de-cabeça-negra (Formicivora erythronotos). 

Eu e Hudson esperando o formigueiro

Eu e Ruber

No Wikiaves só tem registro dele em Angra e Paraty. Mal a gente encostou o carro, ouvimos um casal vocalizar. Porém não quiseram sair nem por decreto, nem com galinho bonitinho, tudo arrumadinho para fazer foto pro Instagram. O jeito foi seguir para o próximo ponto. Tenta de lá, tenta de cá e nada. Vai dando aquele desespero! Será que o bicho vem? Mas aí é onde entra a fé e o Hudson. E num é que veio mesmo. Só não quis dar muito mole. Não ficava muito tempo parado, mas deu para fazer foto bacana, só não a dos sonhos. O importante foi poder apreciar essa raridade, tanto a fêmea quanto o macho. Pronto, missão cumprida.


Formigueiro-de-cabeça-negra (Formicivora erythronotos)

Formigueiro-de-cabeça-negra (Formicivora erythronotos) macho e fêmea

Subimos a serra de volta, onde a amiga Márcia Carvalho nos esperava com um delicioso almoço. No caminho faríamos uma parada para dar um abraço na amiga Kacau Oliveira. Isso porém acabou inviabilizado devido ao tempo que estava apertado. Eu não queria pegar a Dutra ao escurecer, pois é uma rodovia muito perigosa e tensa.

A amiga Márcia nos recebeu com todo seu costumeiro charme e elegância. É uma amiga muito querida e muito fina. Ela nos serviu um nhoque maravilhoso (o Hudson, ante a insistência da Márcia, levou uma quentinha pra esposa). E o melhor ainda estava por vir, a sobremesa fantástica que ela nos ofereceu: um sorvete divino com cobertura de chocolate. Não tenho vergonha de dizer que repeti duas vezes. Mas o melhor e mais marcante dessa visita foram os conselhos da Márcia no sentido de que a gente deve aproveitar a vida ao máximo, enquanto podemos, temos mobilidade e saúde. Nem sempre a disposição e a mobilidade andam juntas. A idade avança a galope e começa a nos limitar. Muito sábia essa minha amiga. Por isso eu a considero a rainha das Birding Ladies.

Hudson, Márcia e eu
a famosa sobremesa

Uma paradinha pra selfie com uma paisagem de tirar o fôlego. E toca o carro de volta.



Pra finalizar, deixei o Hudson no carro dele na Pousada e saí de Itatiaia 3:11h. Por volta das 19:00h eu já estava em São Paulo, após enfrentar um congestionamento na Dutra - tráfego pesado mesmo - e na entrada de São Paulo. Porém, seguindo conselho do Hudson e não daquela bobona da Media Nav (GPS do Ruber), eu vim pela Rodovia Carvalho Pinto, bem tranquila, dirigindo a 120 km/h o tempo todo, só parando nos pedágios, quase sem caminhões. Cheguei em casa feliz da vida e morta de cansada, com o sentimento que comecei bem o ano. Mais uma etapa vencida. Obrigada por tudo Hudson, superou minhas expectativas, deixando gostinho de quero mais.

Congestionamentos básicos na Dutra e depois na Avenida Tiradentes 

Conclusão

Passarinhar é um desafio muito grande, exige insistência, persistência, paciência, tolerância, sinergia e muita energia boa. Além de, é lógico, um bom guia, que entenda e respeite muito as aves e seus habitats. Tenho sorte nas minhas escolhas. Eu sinto que comecei o ano bem, com dois ótimos guias, em dois lugares fantásticos, tendo meus objetivos plenamente atingidos.

Gosto de falar que os bichos não tem CEP e endereço fixo, podem ou não estar no local pra mim e pro meu amigo no outro dia não, e vice-versa. Não é culpa do guia, nem sua. É um conjunto de fatores. Há grandes chances de um encontro quando o guia estuda o comportamento da ave e seu habitat. O guia trabalha com premissas e não promessas. E todas as premissas foram satisfatórias dessa vez. 

Aí eu penso, e se não? E se os bichos não tivessem colaborado? Pois bem! Eu ia voltar chorando pra casa? Nãooooo. Será que não conta o momento em que compartilhei minha alma com a natureza? Isso tem um valor inestimável. Por isso, não desisto desse vício de passarinho. O fator da incerteza ajuda no afloramento das emoções. Eu quero sentir as pernas bambas quantas vezes puder na vida, seja por causa de um beijo na boca ou por conta de avistar um passarinho. Falando em Avistar, vem aí o Avistar 2018. Você já se programou? Vou falar sobre um pouco disso tudo na minha palestra e mais um pouco. Não perca. Acontece em São Paulo no terceiro final de semana de maio.

Lifers com Cal Martins

Lifers com Hudson Martins Soares



( existe o post em andamento sobre a viagem ao Pará em novembro de 2017, que foi tão intensa que ainda não consegui finalizar - Aguardem, foram muitas as emoções e pernas bambas rs rs rs).


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