domingo, 1 de outubro de 2017

Acre - O Império das aves cascudas e a Expedição Choca-do-acre – Parte II

O Parque Nacional da Serra do Divisor é uma unidade de conservação brasileira de proteção integral da natureza. Criado através do decreto Nº 97.839 em 16/06/89, situa-se no extremo oeste do Acre, na fronteira com o Peru. É o ponto mais Ocidental do país e abrange os municípios de Cruzeiro do Sul, Porto Walter, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo e Rodrigues Alves.

É considerado o local de maior biodiversidade da Amazônia. A floresta tropical aberta é o tipo de vegetação predominante e seguramente a mais preservada da Amazônia brasileira. Várias espécies endêmicas vegetais e animais são encontradas devidas, em parte, à sua proximidade com o ecossistema andino, numa região de transição das terras baixas da Amazônia e as montanhas dos Andes. Possui uma área de 843.000 hectares, sendo o quarto maior parque nacional brasileiro. É administrado pelo ICMBio. Grande parte de seu território ainda é preservado e faço votos que continue assim.

a famosa choca-do-acre (Thamnophilus divisorius), que deu o nome a nossa expedição

A origem do nome vem do relevo (geografia) da região onde se encontra um divisor natural das águas das bacias hidrográficas do rio Ucayali (Peru) e rio Juruá (Brasil). Na região também são encontrados valiosos vestígios fósseis. O rio Juruá nasce no Peru e banha os estados do Acre e Amazonas, no Brasil. Deságua no rio Solimões, em um percurso de aproximadamente 3 000 quilômetros.

Abriga comunidades indígenas e ribeirinhas, por isso é de grande importância para a região, servindo como hidrovia para essas diversas comunidades, já que rodovias são inexistentes na maior parte de seu curso. O rio Moa é um afluente do rio Juruá, possui muitas cachoeiras e corredeiras. A Serra do Divisor é a única cadeia de montanhas acreanas.

Convido você a assistir esse vídeo do Governo do Acre sobre a Serra do Divisor. O uso do drone nas imagens nos mostra uma dimensão difícil de se ver "in loco". (imagens e edição – Pedro Devani/ Secom/Governo AC). 


Vamos seguir com o relato. Se você leu a parte I deste relato, já sabe tudo que antecedeu nossa viagem e como chegamos até aqui. Se não leu eu recomendo clique aqui antes de prosseguir.

10 de Setembro de 2017 (domingo)

O dia tão esperado enfim chegou, acordamos cedo, colocamos a bagagem no táxi que nos levaria até Mâncio Lima. Passamos pela D. Maria José para um reforçado café da manhã e seguimos para o porto, onde o Miro, mais conhecido como Guardião da Serra do Divisor, nos aguardava.

Nossa bagagem foi acomodada na pequena embarcação, junto com os mantimentos que nós iríamos consumir nos próximos dias. Nós nos ajeitamos conforme o Miro orientou para distribuir o peso adequadamente. A navegação seria difícil, pois as águas estavam baixas, há muitas curvas e troncos perigosos, sendo que toda cautela é necessária.


Saímos de Mâncio Lima navegando pela Área de Relevante Interesse Ecológico Japiim-Pentecoste (ARIE Japiim-Pentecoste), cuja difícil gestão pertence ao amigo Ricardo Plácido. No município de Mâncio Lima está localizada a maior porção da unidade, incluindo uma ilha fluvial de cinco mil hectares, com floresta de várzea bem preservada.

Em determinado ponto o rio Jaiipim encontra-se com o rio Moa, num cenário sinuoso, belíssimo e muito rico. Na vazante, entre os meses de junho e setembro, chove menos, e é quando o rio fica baixo dificultando a navegação. O trajeto é bastante demorado, no entanto de uma beleza sem par.


Praias se formam ao longo da navegação, cujo fundo verde quase intocado, mostra toda a sua diversidade. No resto do ano, o rio fica mais volumoso, porém a chuva é abundante.

O Miro, ou Agimiro Magalhães, nos conduziu por esse caminho com a maestria que eu diria, para *“Prático” nenhum colocar defeito. (*Prático é o profissional que conduz os navios durante a sua navegação em águas restritas nas entradas e saídas dos portos).

o grande Miro em seu posto

Foram longas 11 horas ou mais, com pequenas paradas para usar o “banheiro ecológico” e fazer as refeições. Você segue, ora dormindo, se virando de um lado pro outro no pequeno espaço disponível, ora observando as lindas paisagens que se descortinam à frente dos seus olhos durante todo o percurso.

Barcos com ribeirinhos, com ou sem turistas a bordo, passam por você e acenam. Geralmente há muitas crianças brincando nas margens, próximas às suas moradias. Com sua natural curiosidade, elas nos olhavam e acenavam. Hortas suspensas, varais, sorrisos, tudo ia passando pelo caminho enquanto a gente seguia em frente.







Recomendo que leve tampões de ouvidos ou use um mp3 player porque o barulhinho do motor do barco é constante e irritante. Ensaque malas e mochilas em sacos plásticos, pois tem hora que numa curva ou numa proximidade com outro barco, a água espirra e molha tudo se você não tiver sido prevenido.


Preferi contar em um vídeo-fotos como foi a nossa ida até a Serra na Pousada do Miro. Acho que você vai gostar. 


A Pousada do Miro, construída pelas mãos dele, fica às margens do Rio Moa, quase no “portal” que dá acesso à subida onde se encontra a choca-do-acre. A Pousada não tem energia elétrica, mas o Miro instalou um gerador à gasolina, que funciona só no final do dia por tempo suficiente para o jantar, o jornal e a novela (por mim, totalmente dispensáveis). Aproveitávamos esses momentos para carregar baterias e celular e combinar como seria o dia seguinte.





O Miro montou uma caixa d’água com sistema de água encanada, fez dois banheiros com vaso sanitário e chuveiro. Tudo isso é um luxo, viu gente? A maioria ainda toma banho, lava louça no rio e faz as necessidades na "casinha".


A água para beber, no caso de você não levar seu estoque da cidade, vem da Cachoeira do Amor. Muito boa por sinal. Acho que foi ela quem me deixou apaixonada pelo lugar. 💛💚💙💜

Nelson abastecendo a garrafinha de água.

A comida é caseira e apetitosa. Muito do que é consumido é produzido na própria horta ou na comunidade. O peixe é fresco e deixa a gente com água na boca, querendo sempre repetir. Há redes deliciosas na varanda.



o Miro cortando coco pra tapioca
Vai uma bananinha aí?
Não há armários nem lugar para pendurar roupas, mas os colchões são bem confortáveis. Eu me ajeitei como pude. Desculpe a bagunça aí da foto, mas é tanta coisa pra fazer que não sobra tempo pra organizar tudo direitinho.


Após uma gostosa refeição, um banho, arrumação do que iríamos precisar no dia seguinte, fui dormir. Estava muito cansada, mas precisava de todas as forças, inclusive emocionais, para o grande dia: a subida até o topo da Serra. Achei que ia ter pesadelos, só que não. Dormi feito um anjo.

Eu trouxe algumas músicas especiais no meu ipod, entre elas algumas da amiga Keyla Fogaça, as quais gostava de ouvir antes de dormir. Uma música que me serviu de inspiração.

Keyla Fogaça e Luciana d'Avila - Não me canso de querer


11 de Setembro de 2017 (segunda-feira)

Um pouco antes das 6 da manhã, eu já estava prontinha, esperando a turma. Fiquei apreciando o entorno da pousada. Um lindo urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) fez pose pra mim, com a lua ao fundo. E sabe que foi o primeiro registro para o município no Wikiaves?


 As pernas estavam bambas e ficavam se perguntando se aguentariam o tranco...eu batia nas coxas e dizia pra mim mesmo e para elas: "boralá - vai ser moleza"!

Aproveitamos para fazer umas fotinhas da turma para marcar a ocasião.

Nelson, Viviane, Miro e Ricardo

Miro, Viviane, eu e o Ricardo
Em torno das 7 horas, estávamos na pequena voadeira com o Miro. Alguns topázios-de-fogo (Topaza pyra) aliviaram a pressão do meu cérebro. Tamanha era a beleza deles que por mim eu desistia de subir e ficava por ali mesmo. Será ? Lógico que não, né!?

Ricardo e eu, na maior expectativa

topázios-de-fogo (Topaza pyra) 

Por volta de 8 horas começamos a subir. De acordo com o Ricardo, não adiantava chegar lá muito cedo. A primeira dificuldade foi logo na chegada, um paredão dava acesso à trilha. Subi com dificuldade. Nessa hora, o Nelson e o Ricardo me deram uma força.



Viviane tirou de letra, eu queria filmar toda a subida, mas meu cérebro se recusou a fazer qualquer coisa que não fosse ficar atenta aonde eu pisava. O medo de perder o equilíbrio era muito grande, temia cair e rolar com o equipamento no corpo.

Para quem não sabe, esse ano eu escorreguei no Parque das Emas, bati e cortei a cabeça, tive hemorragia e passei a tarde na UTI, onde levei pontos no couro cabeludo. Com isso meu medo de queda triplicou, daí ser um grande desafio para mim.

Teve umas quatro ou cinco subidonas íngremes, de suspirar fundo, parar e me dizer, “vai minha filha, conta até 10, entrega pra Deus e segue em frente”. Tinha algumas partes fáceis, então eu respirava profundamente, tomava um gole de água e andava mais rápido.

O resto eu ia pé-ante-pé, olhando bem mesmo aonde eu pisava, com uma mão segurando o bastão de apoio e a outra grudada na mão do Ricardo. Beleza esse coletinho de encaixar a câmera junto ao corpo que eu comprei igual ao da amiga Roseanne Almeida, ajudou e muito. O Miro vinha atrás com lanche e água e o Nelson ajudando a Viviane.






Suávamos em bicas, foi quando as famosas lambe-lambes entraram em cena. Hora de aproveitar a dica da Fernanda e retirar do bolso a proteção de tule e colocar sobre o chapéu. Mas pensa num treco agoniante. Era esse treco ou as abelhinhas, fácil escolher, né?


Chegamos finalmente no ponto da choca-do-acre (Thamnophilus divisorius). O Ricardo começou a chamar com o playback. Demorou um tempo e um machinho atendeu. Eram 9:34h quando fiz a primeira foto. Não foi aquele fotão, depois ela ficou ziguezagueando e não se aproximou mais.

Descansando um pouco 



choca-do-acre (Thamnophilus divisorius)

choca-do-acre (Thamnophilus divisorius)

Demos um tempo de quase uma hora e aproveitamos para lanchar e ir ao mirante, que foi construído pelo super Miro. Tentamos de novo na volta e nada.

Selfie do grupo no mirante do Miro


Visão de cima do mirante do Miro

Nisso um vento estranho passou por nós, seguido de um estrondo. Não demorou muito e o mundo desabou em água. Meu medo de descidas sempre foi maior que o de subidas. Com a chuva se derramando sobre a serra, só pensava na dificuldade que seria descer. E tínhamos que ser rápidos. Ninguém trouxe capa de chuva. Eu tinha um saquinho de lixo pra câmera no bolso e só. Desci me apoiando no Ricardo e olhando apenas para os pés dele. Aonde ele pisava, eu pisava também. Foi tenso, mas chegamos sem nenhum escorregão.

Ao chegar na pousada, os raios e a chuva tinham cessados. "Que óidio!" A gente estava encharcado até os ossos e pingando água por todos os poros. Colocamos as roupas no varal, tomamos um banho e fomos descansar. Eu estava quebrada. Mas tinha conseguido o que eu vim buscar e que tinha motivado a expedição: a famosa choca-do-acre.

Molhados e felizes

Ricardo e Viviane colocando a roupa para secar

Olha a cara de felicidade da "sujeitinha" após a descida

E uma borboleta adorou minha bota molhada

Escuta essa: o Ricardo perguntou se eu topava voltar lá. Resposta na ponta da língua na hora: nem morta!

Passamos o resto da tarde clicando uns penosinhos por ali, até que quase consegui uma boa foto do Barranqueiro-de-coroa-castanha(Automolus rufipileatus), mas é um estrupício mesmo, quando eu cheguei bem pertinho, ele atravessou o rio.

O Miro e a Vanessa chegando da vila

O Ricardo chamando o barranqueiro

A Vivi atrás do barranqueiro

Aqui by Viviane, eu atrás do barranqueiro
Fim do dia, jantamos e eu fui dormir cedo. Dia seguinte tinha mais. A letra da música abaixo parece que foi feita para o momento. Aprecie com um cafezinho.

Beyoncé - I Was Here (Legendado) - Eu Estive Aqui


12 de Setembro de 2017 (terça-feira)

Acordar de madrugada e ouvir o som das aves despertando ao meu redor, o rio correndo e levando vida com ele, é algo que me deixa fora dos eixos, dá vontade de fazer o tempo parar. Só de lembrar desses momentos, lágrimas me vem aos olhos. Ao sair para escovar os dentes, olhei pra Serra e vi que ela estava envolta numa névoa.

Estava um quadro bonito, mas eu queria mesmo era admirar o mirante aonde estive. Será que foi a tal “divergência em altitude, o escoamento em superfície e a termodinâmica, favorecendo a formação de núcleos convectivos isolados”, que provocaram a pancada de chuva acompanhada de trovoadas e descargas elétricas? Só pode né?



Em seguida fiquei observando uma voadeira parar para levar o irmão da Vanessa até a escola. Uma vida cheia de dificuldades, mas com certeza, um dia ele será recompensado. Crianças sempre me comovem.

Eu as vejo como a única salvação desse planeta, caso sejam bem encaminhadas. Por isso, eu quero implantar meu projeto com essas crianças. Espero contribuir pelo menos um pouco para a educação desses pequenos e "deixar minhas pegadas sobre as areias do tempo".


O quintal do Miro é um verdadeiro jardim para as aves, beija-flores, bem-te-vis, gralhas, suiriris, etc, ficam ali o dia todo fazendo festa. Um gavião-azul (Buteogallus schistaceus) tem sua rota estabelecida por cima da pousada e todos os dias eu o via atravessar o rio por ali.

A maria-da-praia (Ochthornis littoralis), que praia nada, ela gosta mesmo é de ficar passeando sobre o deck de madeira. O urubuzinho (Chelidoptera tenebrosa), andorinha-do-rio (Tachycineta albiventer) e o peitoril (Atticora fasciata) fazem ninho bem pertinho. O martim-pescador-grande (Megaceryle torquata) é mestre em zanzar pelo rio atrás de peixinhos frescos.


Sobre o bem-te-vi-de-cabeça-cinza (Myiozetetes granadensis), de acordo com o amigo Hilton Cristóvão, o meu registro o deixou muito feliz e iria até beber pra comemorar. Quando ele esteve na Serra do Divisor (Acre) seguiu à risca os 10 mandamentos que diz : "Rastejou, andou ou voou, fotografe, pois é espécie nova".

Contou-me ele que, quando fez a foto, podia jurar que era um simplório bem-te-vi, mas alguns meses depois, pesquisando foi ver que era lifer para ele. Ele o havia registrado no mesmo lugar que eu, no quintal da Pousada do Miro.


Esse bem-te-vi-de-cabeça-cinza recebe muito bem os visitantes, pelo jeito. E era insistente, ficava apontando a  Serra do Divisor e me dizendo: “ volta lá, vai”. Eu só respondi: vou pensar!

Mas o dia mesmo era do topázio-de-fogo (Topaza pyra). Foi tanta foto, tanta foto linda, que foi difícil escolher a mais linda. Ele arrasou no show matutino. Somos mesmo uns privilegiados. A foto que postei dele no Instagram foi compartilhada e tem mais de duas mil curtidas.


Em seguida fomos para a Cachoeira do Amor, atrás do formigueiro-cinza (Myrmelastes schistaceus). Dizem que quem bebe água dela, volta apaixonado. Eu confirmo, pois apaixonei-me pela Serra, isso eu garanto. 💞💝🌺

Seguimos caminho e entramos na trilha que nos levaria à cachoeira, não é difícil, mas não espere moleza. Detalhe: tem que ir de galocha, pois o caminho é por dentro de filetes de água em alguns trechos. 





O bichinho veio, mas começou a ir de um lado pro outro. A Viviane e o Nelson conseguiram fotografar. Eu não, pois de onde eu estava posicionada não conseguia vê-lo. Foi dando aquele desgosto e um nó na garganta. Até o pobre Miro percebeu e começou a me ajudar.

Ele é cinza, o ambiente fechado, escuro, não havia muito o que se fazer a não ser esperar. E de repente, ele pousou na minha frente. Parou e esperou eu focar e fazer uma bonita foto. Mais um lifer a ser comemorado.

formigueiro-cinza (Myrmelastes schistaceus)

Fomos seguindo até a cachoeira. Um local muito bonito. É bem gelada e convidativa, mas eu dispenso o banho porque dá trabalho tirar a parafernália toda e ficar em trajes de banho. E ainda depois tem que colocar tudo de novo. Preguiça é meu nome do meio kkkkkkkk. Falando sério, se quer curtir cachoeira, tire um tempo só pra isso.


 Ainda ficamos batendo um papo às margens do Moa, sentados em um tronco, antes de retornar.



Almoço e descanso já faziam parte da minha rotina. As redes eram disputadíssimas após o almoço, né Viviane?


Pouco depois de um cochilo, sentei-me no quintal frente ao rio e comecei a prosear com o Ricardo e o Miro, enquanto clicava a paisagem.



O Ricardo viu o pavãozinho-do-pará (Eurypyga helias) na praia, e me disse, se prepara que ele vai voar e atravessar. Dito e feito. Consegui a foto dos meus sonhos.

Acompanhe a sequência.

E ainda consegui fazer foto da bela gralha-violácea(Cyanocorax violaceus), bonita do jeito que eu queria.


No fundo do quintal do Miro tem uma matinha pé de serra, resolvemos explorar e quem sabe encontrar o famigerado formigueiro-grande. Ouvimos algumas espécies vocalizarem, em algum momento eu disse pro Ricardo: "engraçado! o timbre é de sabiá"... aí sacamos logo que poderia ser um caraxué e o Ricardo chamou o bicho que de pronto passou feito uma flecha.

Sempre no alto, imitou mais de 20 espécies da região. O Ricardo anotou todas. O bicho finalmente se mostrou e era mesmo um caraxué-de-bico-amarelo (Turdus lawrencii). Era lifer pra ele também. Como não havia luz e ele não descia, nem chegava um pouco mais perto, combinamos de voltar na manhã no dia seguinte. Fiz uma foto meia boca e gravei o som.

caraxué-de-bico-amarelo (Turdus lawrencii).
Olha só os buraquinhos que ele pousava por frações de segundo...

Foi o primeiro registro fotográfico no Wikiaves para a espécie no Estado do Acre. Pela sua importância e raridade, foi a foto que me fez mais feliz de todas. Abaixo segue o som com imagens dele. Absolutamente FASCINANTE!!!!!!!

Abaixo o vídeo com o som e algumas imagens capturadas do bichinho nos dias 12 e 13/09.



13 de Setembro de 2017 (quarta-feira)

Para não perder o costume, acordamos cedo, nos preparamos e parabenizamos o Ricardo, era seu aniversário. O que ele não sabia é que eu e o Miro havíamos combinado, ainda na cidade, de fazer uma surpresa pra ele à noite. O que eu não sabia é que o Miro tinha convidado os vizinhos e parentes para a festa. rs rs rs


Mas voltemos aos passarinhos, resolvemos ir até a matinha atrás de novo do caraxué. E olha que ele resolveu se mostrar um pouquinho mais, não tanto como eu gostaria, mas foi inebriante. Eu nem preocupei tanto com foto dele, até mesmo porque ele não parava quieto, meus ouvidos queriam é se deliciar com seu canto.

No período da tarde, o Miro nos deixou na casa do filho dele, do outro lado do rio. Muitas borboletas na praia. Uma festa para os olhos. 


Suas netinhas de cara me encantaram. Tipicamente tímidas por conta da idade, uma delas se recusava a olhar para a câmera, mas nos demais dias, ela já estava mais solta e eu até ganhei um beijinho. Amo a inocência e transparência das crianças.




Seguimos pra uma trilha muito boa, que nos trouxe momentos especiais. Mais um lifer: vite-vite-de-barriga-amarela (Pachysylvia hypoxantha) pra lista. Gosto do nome científico dele, olha só Pach-Sylvia.

 vite-vite-de-barriga-amarela (Pachysylvia hypoxantha)

Um casal de macuru-de-testa-branca (Notharchus hyperrhynchus) deu um show à parte. Foi o primeiro registro para Mâncio Lima no Wikiaves. As gralhas-violáceas (Cyanocorax violaceus), como sempre, em festa.

Mas quem roubou a cena foi um formigueiro-de-taoca (Hafferia fortis). Bicho complicado. Sempre no escuro, pulando igual pipoca. Nossa Senhora do Binóculo me faltou nessa hora, pois consegui vê-lo e registrar no limpo, mas fazendo foco manual, na maior velocidade que consegui, lembrando que em outra expedição por Rondônia (veja aqui) eu consegui ver apenas o olho da fera.



Depois disso voltamos para a pousada. Ricardo perguntou de novo se nós não gostaríamos de tentar melhorar a foto da choca-do-acre. Teríamos apenas o dia 14 para isso. Viviane e Nelson disseram que não, que estavam satisfeitos.

E eu, depois de muito pensar, resolvi aceitar o novo desafio proposto. Subiria de novo. Superação faz parte da minha história de vida. Combinamos que o Miro levaria o casal De Luccia até algumas trilhas ao redor e eu e Ricardo iríamos subir a Serra logo cedo.

E lá em cima o mirante do Miro me esperava novamente...

Lógico que eu ia sonhar com ele a noite toda rs rs rs

Após o jantar, o Miro e sua família deram início a festança com direito a um bolo da cor das velas que eu levara para comemorar o aniversário do Ricardo. Ele se emocionou muito, e eu também. Eu sei muito bem como é difícil largar família e amigos e ir morar do outro lado do país sozinho.

Na hora do almoço cantamos um "parabéns a você"...

Mas a grande festa foi à noite

Veja a seguir em vídeo-foto a homenagem que fiz ao Ricardo Plácido, bem como um pouco do que foi a festa de aniversário dele com a participação da comunidade da Serra do Moa


14 de Setembro de 2017 (quinta-feira)

Após o café, seguimos pra Serra. Já não havia o mesmo friozinho na barriga de antes, porque eu sabia como era o percurso e que, apesar de difícil, eu conseguiria. Lá fomos nós para o portal (onde começa a subida). Havia mais passarinhos cantando, ou será que era eu que estava menos tensa e prestei mais atenção? Não sei dizer. Mas não espere muita coisa.

Ricardo na subida e no playback

Ricardo e eu nos protegendo das lambe-lambes

Dificuldades a serem superadas

Uma das primeiras coisas que ouvimos, ainda na parte mais baixa foi o delicioso canto do caraxué-de-bico-amarelo (Turdus lawrencii), mas este, embora chamado pelo Imperador, não ficou tentado a ver o que estava acontecendo. Em seguida, antes da choca, a única coisa além das mutucas, muitos insetos e um pequeno primata, foi um poiaeiro-de-pata-fina (Zimmerius gracilipes).

a terrível mutuca...

não sei o que é, mas dá medo...

...oi...

A choca-do-acre (Thamnophilus divisorius) atendeu ao Imperador, mas não facilitou pra foto como a gente queria. Vimos dois casais, um de cada lado da Serra. Porém, mais uma vez a pressão atmosférica não colaborou. O tempo estava abafado, muito quente, preanunciando chuva. Pelo menos eu vi e registrei a fêmea, desta vez, meio de longe, mas já valeu e muito. Devido ao iminente temporal que se anunciava, e que veio nos apanhar quando chegávamos às margens do Moa, desistimos de esperar uma oportunidade de uma foto fantástica.

Retornamos à pousada e após o almoço e um merecido descanso, fomos em busca de uns bichinhos “bãos” na trilha da casa do filho do Miro. Viviane conseguiu bastantes lifers. Entre eles a juruva-ruiva (Baryphthengus martii) e o surucuá-pavão (Pharomachrus pavoninus). Eu fiquei muito feliz por ela, cheguei até chorar quando vi um casal de juruva e mostrei pra ela. Gostei mesmo de clicar um chora-chuva-preto (Monasa nigrifrons) devorando uma perereca, um será que era um sapinho que iria se transformar num lindo príncipe? Lá se foi um promissor princeso! kkkkkkkkk

Lá se foi um "princeso"

Fazendo gracinha ...

Fazendo gracinha II

Ganhando beijinho...


Passei o resto da tarde fotografando um bando de taperuçus-de-coleira-branca (Streptoprocne zonaris) na esperança que algum deles fosse diferente e lifer pra mim, só que não.

Hoje foi dia de acertar tudo com o Miro (leve dinheiro em espécie para isso). E o pior, dia de arrumar as malas e ficar triste por ter que transpor o portal do paraíso e retornar para o inferno que é São Paulo.



Uma musiquinha pra descansar os olhos... ouça "É preciso saber viver" com Titãs.


15 de Setembro de 2017 (sexta-feira)

Acordei com vontade imensa de chorar. Nunca gostei de despedidas ou partidas. Isso quebra meu coração. Você sabe avaliar uma viagem se ela foi muito boa quando "o voltar pra casa" te causa dor. Era nosso último dia. Fiquei um tempo na cama esperando o dia clarear e só apreciando os sons da natureza que perpassavam as paredes de  madeiras do meu quarto. 😢😭🤧💙

Levantei e já com as malas já prontas para a partida, peguei a câmera e fui para o quintal. Queria ver o mirante pela última uma vez. Estava lá, mas coberto por uma densa névoa.

Como passarinheira viciada, fui vendo logo se tinha  passarinhos no quintal, queria muito encontrar o beija-flor-estrela. Um caraxué-de-bico-preto (Turdus ignobilis) e um beija-flor-azul-de-rabo-branco (Florisuga mellivora) jovenzinho apenas. Nada do estrela. 




Mas recebi um presente de despedida, mais uma vez o casal de pavãozinho-do-pará (Eurypyga helias) me deu uma chance de vê-los em pose de borboletinha.


 E logo após a névoa começou a se dissipar e eu pude, com minha superzoom SX 50, registrar o mirante do Miro como eu tanto queria.



O cheiro de café me atraiu pra cozinha, onde a Vanessa, esposa do Miro, preparava nosso último desjejum. E “simbora” que o rio Moa não espera. Ele vai continuar correndo e desta vez vamos segui-lo a seu favor.

Vanessa, esposa do Miro preparando nosso desjejum

Juntei vídeos e fotos mostrando nossa última manhã na Pousada e nosso retorno. Acho que fica mais agradável de ver. Se deixar eu fico aqui contando tantas histórias e sentimentos que não vai acabar nunca. Porém sei que a próxima turma que vai pra lá, aguarda ansiosamente meu relato, então vamos fechar logo.



Durante o trajeto até o porto, eu escrevi esse texto, que transcrevo aqui na íntegra: 🌦💙🚣

15.13h. Dormi. Caem gotículas que secam com o vento. É só uma nuvem passando. Como tudo na minha vida. Isso é saber viver. É ser feliz por nada e por tudo. Meu corpo flutua. Sinto a alma viajar. É como um sonho. Sonho bom. Sonho que não se quer acordar. Meu sorriso paira em meus lábios como se entoasse uma canção de felicidade que só meus ouvidos podem ouvir. Vontade de ter asas e sair voando sobre as águas do Moa."


Essa música chama-se A sua (Marisa Monte), mas eu gosto de pensar que o nome dela deveria ser "Sintomas de saudades" e eu fiquei ouvindo assim que embarcamos para voltar. Gosto da frase "Como o tempo vai, o vento vem" ...



Considerações finais
Quase “finalizando, finalmente!” Só posso dizer: em se tratando da Serra do Divisor, abra tua mente e teu coração. O lugar é simples, desafiante, mas enriquecedor. Numa escala de 0 a 100, a gente evolui pelo menos 50%.

Quando retornei para casa, vim com a mala cheia de roupas sujas, mel de uruçu e cartões abarrotados de fotos. Mas o que contou mesmo foi a bagagem que veio dentro da minha alma: sentimentos quase inexplicáveis, leves, de saudades, de vontade de ficar, de voltar...

Por mim ficava lá uns três meses, pelo menos. Eu me apaixonei pelos encantos do Moa. Às suas margens, eu desbravei sentimentos encantados e escondidos dentro de mim. Não tem como colocar em palavras esse momento ímpar da minha vida. Quem me acompanha sabe das tristezas que antecederam essa viagem. Mas estar feliz ao lado de pessoas encantadoras, desfrutando de um lugar abençoado, ajudou a minha alma a encontrar o equilíbrio que eu precisava para seguir adiante.

auto-retrato durante a viagem de volta ... pensativa...

Obrigada Nelson e Viviane De Luccia pela companhia prazerosa e alegria e por encararem os desafios da Serra comigo. Graças ao bom humor e leveza de vocês dois, tudo ficou mais fácil e com sabor especial.

Viviane e Nelson De Luccia

Obrigada Miro e Vanessa por me receberem em sua casa-pousada com tanto zelo e carinho. Vocês são pessoas exemplares. Meus heróis. Torço muito pela felicidade dos dois. Vocês tem uma riqueza que eu jamais vou ter, embora talvez nem tenham consciência disso. Tem gente que pensa que morar em um lugar tão longínquo e afastado é viver em solidão. Eu discordo totalmente, não existe solidão, num lugar desses, pois o viver em comunidade é necessário. Exige muita cooperação, simplicidade, até mesmo por necessidade de sobrevivência. E viver assim em comunhão com a natureza é menos solitário do que viver em São Paulo com milhares de pessoas ao seu redor.

Miro e Vanessa

E... princ... digo, imperador do Acre, mais do que obrigada, sem você, Ricardo Plácido, nada disso seria possível. Eu te deixei por último, pois está difícil adjetivar você. Grande amigo, companheiro de todas as horas, dedicado, sempre disposto a encarar quaisquer desafios (quaisquer mesmo), inobstante estar com sintomas febris e/ou muito cansaço acumulado. Teve um carinho e cuidados incríveis comigo, principalmente na hora de eu encarar os mais puxados obstáculos. Você me deu a certeza e confiança que eu precisava para transpô-los.

Você não mediu esforços para nos mostrar as aves mais raras do Acre, que agora é teu de coração. Você se esforçou pra que fizéssemos as melhores fotos de todas e se entristecia quando por algum motivo a gente não conseguia ou algum passarinho dificultava.

Você se mostrou forte quando o cansaço te apanhava pelo caminho, e fez tudo para não demonstrar, não nos deixando esmorecer. Só posso te agradecer por estar comigo num momento tão especial quanto este. Poderá contar sempre comigo. Ano que vem espero poder ir de novo e desbravar novas terras desse Acre tão pequeno, tão esquecido pelas autoridades federais, mas tão majestoso no que diz respeito à sua remanescente natureza.

É seu imperador e dessa terra cuidará com um carinho e zelo como se teu império fosse.


Seis dias, considerando um pra vir e outro pra voltar não deu pra nada. Senti um aperto no coração na hora de partir e uma vontade louca de ficar, que não tem como descrever. O Rio Moa tem esse poder: nos seduz e não nos deixa querer ir embora. A gente quer permanecer no seu aconchego, no seu colo, no seu berço, beber sua água, molhar seus pés nele...ah! Rio Moa, eu voltarei...


Vou transcrever abaixo o texto da amiga Viviane De Luccia, artista plástica, passarinheira e uma das Top 5 do Wikiaves em número de espécies. Minha grande parceira de viagens. Com ela fiz as melhores expedições da minha vida. Ela me inspira a fazer o que faço e ser como eu sou. Amiga, eu te admiro muito.

A dama do leque

Ela resumiu muito bem o que foi essa nossa experiência:

“RIO MOA - De Mâncio Lima à Serra do Divisor, no extremo oeste do Acre, foram 12 horas de barco por esse rio... Sair do caótico burburinho da capital paulistana, e mergulhar nesse universo de paz e simplicidade, que é a vida dos ribeirinhos do Moa, foi uma experiência inesquecível...

Para os habitantes de suas margens, o rio representa tudo; é a alma daquele povo.... qualquer deslocamento dos moradores se dá em suas águas... nos inúmeros barcos com os quais a gente cruza, o alegre colorido de roupas e sombrinhas de seus ocupantes... crianças seguem para a escola nesses barcos, todas muito alegres usando coletes coloridos ... a ida à civilização em busca de víveres, ou para venda dos produtos da colheita de suas plantações, são igualmente feitas através do rio ....barcos carregados de banana, melancia, macaxeira e farinha, circulam por todo o trajeto, rumo à Mâncio Lima, onde podem render alguns trocados .

O rio Moa traz a esses ribeirinhos o peixe que os alimenta... a água que bebem, e com a qual cozinham... a água em que se banham e onde as suas crianças se divertem... É nas margens desse rio que vemos as mulheres lavando sua louça, suas roupas e seus bebês...

Percorrer de barco o rio Moa, é captar o modo simples de vida dos habitantes de suas margens... emocionar-se com as casinhas humildes de madeira sobre palafitas, sem rede elétrica ... é encantar-se com a alegria das cores vivas de seus varais....

Navegar pelo Moa é adentrar nas matas exuberantes do Parque Nacional da Serra do Divisor, com suas praias de areia branca e suas lindas cachoeiras ... é sentir o frio na barriga ao passar por lugares estreitos, desviando de troncos caídos no leito do rio ou ao bater o fundo do barco em bancos de areia., na época da seca.... 

Navegar pelo Moa é deliciar-se com as aves que se deslocam com a passagem do barco a motor... as andorinhas, os martim pescadores, os maçaricos, as marias da praia, os pavõezinhos do pará , os socós, os bem te vis, e muitos outros..."

Obrigada, Viviane! Seu texto e fotos ficaram maravilhosos.

Antes das dicas sobre a viagem, deixo aqui um presentinho pra vocês, um vídeo sobre o Juruá, que descobri no YouTube. Dá uma paradinha pra ouvir essa linda composição.

Vale do Juruá (Alberto Lôro)
Pássaros livres, no ar / O Moa beijando o Juruá / Samaúnas, pessoas e flores / Vale cheio de amores
Igual não há / Tejo, Bagé, Acuriá / Cruzeiro, Feijó, Tarauacá / No Amônia os Ashaninkas
A encantar / Botos felizes a brincar / Partindo o ar /Vocês precisão ouvir a voz que vem de lá /Vocês precisão ver a beleza do Juruá



DICAS PARA QUEM PRETENDE IR PARA A SERRA UM DIA

1 - A ida e vinda de barco/voadeira
  • O barulho do motor da voadeira é alto, constante e enjoativo. Eu levei tampões de ouvidos, mas usei mesmo foi o meu ipod o tempo todo.
  • Leve sacos plásticos grandes para por mochilas e malas dentro. De vez em quando espirra água dentro do barco, sorte a minha que levei grandes sacos de lixos.
  • Leve somente o necessário de bagagem. Isso ajuda pra ter espaço e conforto no barco.
  • Um travesseiro de ar ajuda. Eu infelizmente furei o meu. Ainda bem que o Miro disponibilizou uma almofada.
  • Na volta optamos por tirar os encostos dos bancos e vir deitados nas malas e mochilas. Facilita pro Miro enxergar os troncos e evitar um acidente. Ele é um herói. Conduziu a gente por 10 a 11 horas pelo Moa e afluentes com aquele barulhinho ensurdecedor do motor nas orelhas, sem nos deixar apreensivos uma vez sequer.
  • Xixi no caminho é nas praias. Leve lencinho ou paper.
  • A matula é em alguma praia também. Compre gelo na cidade, se o calor tiver de matar, uma geladinha desce bem.
  • Resista à vontade de ir no barco só de chinelo, bermuda e regatinha. Faz frio no início e depois o sol te queima embora tenha cobertura. Traga uma meia longa, vai sentir necessidade dela por causa do frio no início e sol forte depois.
  • Na volta eu vim de calça levinha e blusa dryfit de manga longa. O Moleton eu só usei quando saímos.
2- A pousada
  • Lá não tem energia elétrica nem sinal de telefone (nem tampouco 3 ou 4G)
  • Leve muitas baterias e cartões, esqueça notebook. Leve uma régua com várias tomadas e adaptadores. O gerador fica pouco tempo ligado. Só o tempo do pessoal ver novela ou jogo de futebol na TV. Eu preferia deitar cedo, ouvir música e ou ficar na janela olhando a noite até dormir. Adoraria jogar conversa fora com quem não estivesse vendo TV, mas parece que só eu não gostava da coisa.
  • Leve lanternas para enxergar dentro do quarto. Mesmo com gerador ligado, uma só lâmpada ilumina quatro quartos. Não tem forro. 
  • Tem banheiro com vaso sanitário e descarga. Tem chuveiro, água na temperatura ambiente, o que significa não gelada. Quase sempre eu tomava banho cedo, depois do almoço e a noite antes de dormir.
  • A água que bebemos é de cachoeira. Eu não passei mal nenhum dia, mas se acha que pode passar, leve aquelas substâncias para purificação.
  • Sugiro levar uma tolha e um jogo de lençol (casal) bem leve. Eu levei de microfibra com corujinhas pra me inspirar kkkkkk (e doei no final). Eles têm colchas de tear, mas não tem enxoval de quarto completo. Nem serviço de quarto, por isso mantenha suas coisas em ordem.
3 – A subida até o cume da serra
  • Tem que ter espirito aventureiro e cooperativo. Bom humor é fundamental.
  • Bastão de caminhada é imprescindível - o meu é da Decathlon, não dá pra subir sem ele de jeito nenhum.
  • A bota de caminhada tem que ter boa tração (a minha é Vento). O caminho é cheio de folhas. Escorrega.
  • Lambe- lambe. Não suba sem uma telinha de tule protegendo o rosto. Elas entram nos olhos nariz e ouvidos sem dó nem piedade. Não picam, mas pensa num bichinho chato de doer.
  • Os leques da Viviane: nossa ela me deu um. Na subida, além da agua, era ele que resfriava “meu radiador”.
  • Não tenha pressa de subir...é no sapatinho. Pé-ante-pé.
  • Aproveite para dormir sempre que puder. Descanse após o almoço. Vai precisar estar inteiro para subir. É punk.
  • O preparo físico tem que estar pelo menos 80%. Sugiro subir e descer escadas todos os dias. É bom pros músculos e coração. (receita do meu cardio). O treco lá é bem íngreme.
  • Subir e descer a Serra te dá uma sensação de poder. De vencer obstáculos, principalmente psicológicos. Por isso nem pense em desistir no meio do caminho. Você consegue, vai por mim.
  • Leve capa de chuva e lembre-se de levar ela na subida. Leve protetor de chuva pra câmera. Chove do nada.
  • Não esqueça das galochas, é imprescindível para a trilha da cachoeira do amor.
4 – Cuidados pessoais
  • SBP com citronela (meu preferido) nas roupas, meias e botas, no dia anterior.
  • E muito repelente. Não economize. Usei 3 tubos gel e 2 spray.
  • Não peguei um carrapato, mas mutucas ainnnn, no dia da grande chuva, picaram por cima da roupa.
  • Eu dormia com repelente Johnson pra crianças no corpo. Não havia muitos insetos à noite, mas lembre-se, eu fui no começo de setembro, final do inverno.
  • Leves seus remédios e um nécessaire de primeiros socorros. Você pode precisar a qualquer momento. 
  • Esqueça itens de beleza. Lá o que importa é a sobrevivência.
  • Leve perneiras.
5 – As aves
  • Não há tantas aves cascudas pra quem como nós (eu e Vivi) já temos quase tudo quanto é ave amazônica. No nosso caso os lifers foram um a um, dia a dia.
  • Durante a navegação, só andorinhas-do-rio, serradora e peitoril, além de socozinhos e martim-pescador. Tudo isso tem na frente da Pousada do Miro. Aproveite para curtir a paisagem.
  • Destaque para os topázios de fogo que dão show na frente da Pousada.
  • Estude as aves que espera encontrar no local. Tanto som quanto imagens. Foi assim que, de imediato, identifiquei o canto do caraxué-de-bico-amarelo que encontramos.
  • A choca não deu mole não. Tentamos de um tudo. Encarei nova subida e não fiz a foto dos meus sonhos. Isso é o de menos, pois o que vale é que vi e registrei uma das mais raras aves do país, quiçá do mundo.
  • Sim, você vai ver bichos cascudos, mas vá pensando maior. Você será um privilegiado por poder vivenciar essa experiência única.
6 – Outros
  • Grupos pequenos tem mais chance de sucesso.
  • Doe o que te sobra para o Miro e a Vanessa. Eu doei o jogo de lençol que levei e a Viviane a galocha para o Miro que já foi picado por uma cobra e quase morreu.
  • Falando nisso, ande sempre de perneiras.
  • Eu fiz listas off-line no e-Bird via celular em todos os locais onde ia clicando. Ajuda identificar as aves nas fotos depois e os respectivos lugares.
  • Se tiver gravador e play back sobrando leve para o Miro (já com os sons). Eu estou enviando um guia das aves amazônicas pelo mestre Tancredo. Melhor ainda. Se tiver sobrando, doe uma câmera. Vai ser muito útil para ele e para novas descobertas. Irá entender o porquê estou falando isso o dia que for lá.
  • Leve dinheiro em espécie, lá não pega celular e por motivos óbvios ninguém lá trabalha com cartão.

Num esquece, se quiser ver tudo que cliquei, olha a lista no meu e-Bird.


3 comentários:

  1. Este relato mostra uma expedição que mistura exploração científica por espécies da fauna, observação dos aspectos sócio-culturais das comunidades e modo de vida dos locais, seus cotidianos e seus costumes.
    Dá dicas de vestimentas, de repelentes, fala que na hora de se poupar, aproveite bem pois depois vem a pauleira.
    Mistura poesia e a autora (Silvia) entra de corpo e alma. Destaco esta frase:
    "Mas o que contou mesmo foi a bagagem que veio dentro da minha alma: sentimentos quase inexplicáveis, leves, de saudades, de vontade de ficar, de voltar..."
    PARABÉNS! Um relato que servirá de referência para futuros pesquisadores, aventureiros e exploradores. Abraços capixabas de Hilton Monteiro Cristovão

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  2. Parabéns pelos lifers, relato e dicas inseridas na matéria.

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  3. Parabéns pelo relato, rico em detalhes. Deu vontade de conhecer!

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