quarta-feira, 7 de junho de 2017

Eu quero passarinhar!!!! Usando o método 5W3H


Há tempos atrás recebi uma demanda para falar no Avistar Brasil sobre o Quero Passarinhar, grupo no Facebook que congrega pessoas que gostam de fotografar/observar aves livres na natureza. Este ano, ao me decidir falar, resolvi dar um formato diferente ao tema e falar um pouco de como eu me decido, onde, quando e como passarinhar. Como não consegui gravar a palestra, atendendo a pedidos, vou relatar aqui no blog um pouco de como foi, usando inclusive algumas telas da apresentação e incrementando um pouco mais.

Durante minha vida profissional eu tive treinamento pra implantação de programas da Qualidade Total e um desses métodos eu incorporei na minha vida, inclusive nas minhas viagens. É o método 5W3H, eram 2H apenas, agora são 3 . Ao longo desse texto, você poderá ver como de alguma forma todas as perguntas da metodologia são respondidas.

WHAT? – O QUE (ETAPAS)
WHY? – POR QUE (JUSTIFICATIVA)
WHERE? – ONDE (LOCAL)
WHEN? – QUANDO (TEMPO)
WHO? – POR QUEM (RESPONSABILIDADE)
HOW? – COMO (MÉTODO)
HOW MANY? QUANTOS (QUANTIDADE)
HOW MUCH? – QUANTO CUSTARÁ (CUSTO)

Ser mulher e eleger o mato como lugar preferido pra estar a maior parte do tempo causa espanto em quem é mais ligado à vida das grandes cidades. Alguns amigos meus me questionam se não sinto medo, receio de ficar doente em lugares remotos, se não é tedioso, se não sinto falta de umas férias numa praia lotada de gente bonita, de ir ao teatro e ao cinema. A resposta é NÃO! Não mesmo. Não que eu não goste de viver na cidade, mas, sem dúvida, prefiro a paz que as passarinhadas me proporcionam, mesmo abrindo mão da minha própria elegância, da conveniência dos shoppings center, dos restaurantes e bares da moda e do conforto do meu próprio lar.


As duas próximas imagens mostram um pouco dos momentos mais felizes e inusitados da minha vida nos últimos tempos. A partir delas vou explicar como faço pra aumentar meus níveis de dopamina* durante uma viagem.

* A dopamina é o neurotransmissor da motivação. Aumenta o nosso direcionamento, foco e concentração. Ela nos permite planejar com antecedência e resistir aos impulsos, para que possamos alcançar nossos objetivos. Nos dá a sensação do “Eu fiz isso!” quando realizamos o que nos propusemos a fazer. Faz-nos competitivos e proporciona a emoção da “caçada” em todos os aspectos da vida – negócios, esportes, amor…A dopamina é responsável pelo nosso sistema de prazer e recompensa. Ela nos permite ter sentimentos de prazer, felicidade e até mesmo euforia. 



Todos sabem que antes de observar as aves eu já tinha um caso de amor com a fotografia e tentava me profissionalizar na área do automobilismo. Porém, as aves me conquistaram definitivamente e é delas que extraio as belezas que minhas lentes veem durante minhas viagens. Ao fotografar durante as viagens, o que me faz feliz? Lógico, o foco é sempre a lista de lifers (aves que nunca avistei). A ansiedade que nos domina frente ao novo nem sempre nos permite fazer aquela foto, então parto do princípio que lifer é lifer, tá valendo! Sempre é uma euforia incrível. Mas também é prazeroso fazer o “melhoraifer”, ou seja fotão daquela espécie que você já viu de muito longe e/ou entranhada e nem pode apreciar direito. A alegria também se dá quando eu faço, mesmo que uma foto ruim, o “municipal-lifer”, ou seja quando a espécie é registrada pela primeira vez em foto no Município, isso sempre considerando o site Wikiaves como mapa.


Uma das delícias da viagem é o “red-ball-lifer”, ou seja, é quando registro aves a cada município que atravesso e que vão resultar em pontinhos (bolinhas) vermelhos no mapinha pessoal do Wikiaves. Não importa quanto comum seja a ave, o que vale é o registro feito município a município. 
*Esse mapinha só é disponibilizado para quem é usuário contribuinte do site. 

Além disso, tem o mapa do e-Bird, que te dá uma visão global. Eu ainda estou montando as listas por lá, em algum momento sei que ficará atualizado. E por fim, curto colocar patchs de bandeiras dos Estados brasileiros ou Países onde fotografo aves nos coletes fotográficos. Dos Estados faltam três, e países, bom, o planeta é o limite.


Eu curto muito o “maravilhaifer”, que é quando você faz um lifer com uma foto espetacular. É a glória do photobirder. O suprassumo da fotografia de aves. É quando você sente prazer, felicidade e euforia, tudo de uma vez só.


E agora ficou criado "oficialmente", por sugestão do amigo Fabio Olmos, o “beer-lifer”, ou seja, durante as passarinhadas experimentamos novos sabores de cervejas e confraternizamos com os amigos. Já desisti de levar notebook pra baixar fotos durante a viagem, é peso extra e perda de tempo, investi em mais cartões de memória e mais momentos com os amigos.



E como começo a materializar as viagens que pretendo fazer? Sempre digo que tem três coisas numa viagem que você deve aproveitar e curtir muito: o planejamento, a viagem em si e o pós viagem. Mas vamos ao plano.


1 - Em primeiro lugar vem o desejo de conhecer um lugar, seja porque um amigo fez foto de uma ave rara no lugar, ou porque é um lugar que após pesquisa nas listas do  Wikiaves, e-Bird ou Taxeus, se mostrou promissor de avistamentos, ou ainda, porque você quer apenas conhecer um lugar ou rever um lugar legal que já foi. Também tem as publicações de sugestões no grupo Quero Passarinhar, no Facebook, seja por oferta de pacotes ou simplesmente mostrando lugares, aguçando o desejo de irmos conferir de perto.

2 – A segunda fase começa a complicar. É compatibilizar a própria agenda, decidir hospedagens, verificar se há passagens em oferta, disponibilidade de guias, se vai sozinho ou com amigos, se integra algum grupo ou monta o próprio grupo. Você faz uma avaliação de oportunidades, custos e benefícios e o papel do guia é fundamental nessa hora. Se ele é porreta mesmo, providencia um roteiro detalhado baseado em suas listas de lifers ou melhoraifers. Muitos ficam enrolando, ou porque tem clientes sobrando, ou por faltar tempo ou por não ter a mínima paciência pra fazer isso. Com certeza isso é um divisor de águas entre os mais procurados.

Como funciona a logística?
a)    Oferta de pacote pronto. Há muita oferta de pacotes prontos, alguns até incluem a passagem de avião. Você não tem como discutir nenhum item, é pegar ou largar. E nem pode escolher as pessoas que irão. É um tipo que pode funcionar ou não. Depende muito se os seus objetivos casam com os objetivos do pacote e reze pra que no tal quarto duplo, triplo ou quádruplo fique alguém que seja legal. Já participei de excursões assim e fiz excelentes amigos e já me dei mal também.
b)    Montagem de pacote por demanda (sozinha ou com amigos) – Você pede pra alguém montar um pacote pra você. É importante a clareza do pedido e do retorno de quem responde. Muitos não ditos por ditos causam mal estar depois, tipo esquecer algum custo importante e querer cobrar depois, informando, só depois do pacote fechado e aceito, que aquela despesa estava fora.
c)    Montagem de roteiro por demanda cuidando da logística – essa é minha modalidade preferida, eu digo que pretendo ir para aquela região, se vou só ou não, a pessoa monta um roteiro baseado nas minhas listas (e de amigos que por ventura me acompanharão) e faz a reserva de hoteis, providencia reservas/autorizações para entrar nos parques, aluguel de carro, etc. Você fica só responsável por comprar a passagem e chegar no aeroporto, onde já estão te esperando e ir pagando as despesas durante a viagem, conforme planilha informada. Lembrando que os custos são apresentados antecipadamente (inclusive com opções mais caras e mais baratas).
d)    Roteiro com logística por sua conta. Tem passarinheiro que prefere montar suas viagens sozinho, inclusive logística. Depois que chega no local, contrata o guia (ou não) e vai se embora. Eu não gosto, uma vez que não conheço o local e posso entrar em fria. A não ser que eu esteja retornando ao local,  mesmo assim, eu ainda prefiro a opção anterior.
e)    Convite para integrar algum grupo já montado. É muito comum amigos se juntarem pra viajar e ficar faltando um pra dividir os custos. Aí, o grupo resolve convidar amigos, conhecidos e até mesmo desconhecidos. Porém, o convidado deverá passar pela aceitação do grupo. Dependendo dos objetivos e gênio de cada um, isso pode se transformar numa grande dor de cabeça ou pelo contrário, pode culminar em uma nova grande amizade.
f)    Você convida amigos pra participar de um pacote ou montar uma expedição. Melhor você dar preferência para quem tem os objetivos e estilo muito parecidos com o seu. Questão muito delicada, por exemplo, quando se juntam pessoas com objetivos e gênio antagônicos. É preciso combinar antes, expor cada um o seu objetivo e tentar compatibilizá-los, estabelecendo desde já os limites. E o mais chato é quando você monta o grupo e convida aquele seu amigo legal, que resolve chamar mais três amigos legais que ele tem, sem falar nada com você antes, te colocando em uma saia justa, mesmo sabendo que você não gosta de lotar uma van pra sair pra passarinhar. Dependendo do tipo de bioma o melhor mesmo é ir em dois, no máximo em três ou mesmo sozinho.
g)    Um amigo te convida pra participar de um pacote ou montar uma expedição. Neste caso, quando o grupo está sendo montado, é a hora de colocar os pingos nos “is” e equalizar os objetivos da viagem. Não adianta reclamar depois.

3 – Fechado o roteiro e data é hora de pensar no que vai precisar. Primeiro providenciar as passagens de avião ou outro meio de locomoção que escolher. Verificar se os documentos estão em dia, como passaporte, se é para o exterior, carteira de vacinação, RG válido, CNH válida se você vai dirigir, ver se necessita levar moeda local (caso de viagem ao exterior), lembrar de liberar compras no exterior pelo cartão de crédito, verificar se sua administradora de cartão de crédito oferece algum tipo de benefício em viagem, tipo seguro-saúde, de automóvel, cancelamento de voo, bagagem extraviada, etc. Em alguns casos você tem que entrar no site e emitir os bilhetes de seguro. Perto da viagem, ver se tem alguma conta pra pagar, pra não ter dor de cabeça quando voltar.

Depois começar a separar o que irá levar na bagagem. Começo pelo equipamento, câmera, lente (inclusive back up caso dê pau em um deles), flash, tele-conversor, etc. E depois a “trecaiada” de acessórios, incluindo baterias, cartões, carregadores, adaptadores, régua de tomadas, lanterna, caneta-laser, lanterna, gravadorzinho, ipod com sons de aves e músicas preferidas, ou seja, tudo que posso usar durante a viagem, separo tudo numa necessaire pra facilitar. 


A segunda parte é dedicada aos remédios que consumo regularmente ou que posso vir a consumir, procuro incluir para febre, anti-alérgicos, dor de cabeça, dor de barriga, torção, cortes, tendinites, “velhites diversas”, só não achei ainda um que cure dor de cotovelo kkkkkkk - Agora incluí primeiros socorros também, nunca se sabe quando você vai precisar de água oxigenada, gaze, mertiolate e esparadrapo.


Numa necessaire eu incluo os repelentes: gel, spray, loção, sabonete escabin, um SBP com citronela pra passar à noite nas roupas, perneiras, meias, etc. Noutra necessaire vão os itens de toilette (itens de higiene, um creminho pros pés e mãos, um batonzinho, porque ninguém é obrigado a ficar com cara de bruxa no mato eh eh he). Já coloco as perneiras ao lado da mala, e separo o case com monopé, tripé e bastão de caminhada. Binóculos eu sempre levo, mas pouco uso. 

Por fim, a parte com roupas, que depende muito do clima e local que vou. Procuro levar o mínimo possível, geralmente camisetas dry-fit de manga comprida (de fácil lavagem e secagem), 2 calças próprias para o mato, com muitos bolsos, meu inseparável colete de fotografia, roupas íntimas, um pijaminha, chinelos, meias, uma sapatilha dobrável, uma capa de chuva, agasalho leve ou mais pesado, dependendo do clima local, saquinhos de lixo abertos no fundo pro equipamento, chapéu ou boné, luvas (porque só fotografo com luvas próprias, pois evita picadas e calos) e uma galocha se for o caso de ter brejo ou água. A bota de caminhada vai no pé pra evitar volume extra.



4 – Agora vou falar de uma pecinha pra mim fundamental para uma passarinhada ter e ser sucesso. O expert em aves: chame ele (a) como quiser:  guia, condutor, monitor, tour-líder, acompanhante, ou seja a pessoa especialista que vai te ajudar a ver as aves, aquela que tem um bom ouvido, que conhece todas as aves do local e onde elas podem ser encontradas.

Funciona assim, ele (a) te pede sua listinha de lifers de X, Y ou W municípios. Você envia sua “listinha básica”. No meu caso é uma lista sempre cabeluda, com bichos cascudos (como diz minha amiga e guia Vanilce), uma vez que das quase 2 mil espécies de aves que ocorrem no Brasil, eu já fotografei 1.308, já viu né, bem “básica” mesmo. Kkkkkk Mas eu sempre digo pro (a) guia que o mais importante é fazer uma viagem feliz e os itens da minha "ornito-felicidade" são os listados no início deste post.

Existem algumas frases nesse diálogo entre passarinheiro e guia que sempre me fazem rir. Se eu disser que não ligo pra lifer, não acredite, tô mentindo, lifer prá mim é como sapato novo. Eu adoro... Aí ele(a) pega sua lista e emite um sonoro: é tranquilo, quando você sabe que não é. Passarinhar não é uma ciência exata, onde dois mais dois são quatro, pelo contrário, é uma atividade mais complicada que a Hipótese de Poincaré ou Teorema de Pitágoras

Muitas coisas são relativas e nem sempre atendem nossos desejos. Quando as aves não aparecem as desculpas são sempre as mesmas e muito amplas: o clima não está propício, não é época, já migraram antes do tempo, não chegaram ainda, a frutificação está atrasada, os frutos já acabaram, as aves estão cuidando dos filhotes, saímos muito tarde pra mata, chegamos muito cedo na mata, é culpa da neblina, da chuva, da falta de chuva, está muito quente, está muito frio, está ventando muito, está muito parado, está muito abafado, está nublado, está muito sol, é lua cheia, é lua minguante, é lua nova, é lua crescente (daqui a pouco estarão até inventando lua para servir de desculpa kkkkkkk), por isso eu sempre digo, passarinho não tem CEP nem endereço certo, existem mais e menos possibilidades e o bom guia sabe quando essas possibilidades são maiores ou menores.


É preciso o guia ser honesto e o passarinheiro ter paciência e ambos terem bom humor pra tolerar aquele dia que os bichos resolvem não aparecer e o silêncio é quase sepulcral. E se a energia negativa se instalar, aí mesmo é que os bichos não colaborarão. Se quer certeza de encontrar um bicho num lugar, é melhor ir a um zoológico. Agora é importante saber discernir quando os bichos não colaboram de quando o guia está com má vontade de localizar uma ave difícil. Eu brinco que sempre existem algumas máximas: quem nunca ouviu um guia dizer “na volta a gente tenta de novo” ou “amanhã passamos aqui/lá novamente”. Confesso que vi poucos guias cumprirem essas “promessas”. Eles esquecem e partem pro próximo que pode ser mais fácil. Afinal o que importa é a quantidade de lifers a ser entregue, o duro é quando sua lista vai ficando reduzida a bichos difíceis, daqueles que te fazem perder um, dois ou mais dias pra encontrá-lo e nem assim!

Baseada em minha experiência, eu tracei um perfil do que considero um(a) bom(a) líder/expert (guia) para observação de aves. São situações que eu ou alguns amigos já passaram e que fui anotando durante um certo tempo. A maioria é auto-explicativa e as que necessitarem, eu complementarei com algum comentário. Espero que isso auxilie a aprimorar os serviços prestados, principalmente de quem está iniciando.


O(a) guia ideal para mim tem que...

1 – Responder, assim que estiver online, questionamentos, dúvidas ou quaisquer esclarecimentos adicionais (antes, durante e depois – não existe pior que uma mensagem visualizada sem resposta).
OBS:  É muito chato tratar com pessoas que enrolam para responder, e pior, quando respondem é sempre com evasivas ou esquecendo o que foi escrito ou dito no começo. É preciso ter em conta que informações tempestivas causam boa impressão, já a demora pode causar prejuízo, principalmente financeiro, tipo uma passagem ou hospedagem que estava em promoção. Também não gosto de informações vagas, imprecisas ou incompletas, principalmente sobre custos, datas ou roteiros. E o bom prestador de serviços jamais deixa de te ajudar na pós passarinhada, seja na identificação de alguma foto que fez durante a tour, uma dúvida qualquer ou ainda indicar um lugar onde a foto foi feita. Até pelo contrário, gosto daqueles que olham suas fotos postadas e te corrigem se necessário. Poucos dão importância a isso, sem nem imaginar o tamanho do buraco, pois nessa área da observação de aves, o boca a boca não tem pernas, tem asas e voa.

2 - Ao confirmar uma data, manter o compromisso e não desmarcar de última hora, deixando o cliente na mão.
OBS: Sim, só desmarque se algum fator alheio a sua vontade for imperativo. Caso Fortuito e Força Maior são os únicos motivos justificáveis para desfazer um contrato, mesmo que verbal. Isso é regra absoluta. Veja se é possível alguma solução, tipo alguém te substituir sem causar prejuízo ao cliente.

3 - Enviar um roteiro minimamente detalhando de cada dia do percurso a ser combinado.
OBS: Quer me matar de raiva? Pise na bola em relação a esse item. Me enrole e não ficará vivo como guia, pelo menos na minha memória. Ponto para os guias que tem facilidade e presteza para fazer isso.

4 - Ser objetivo e claro na hora de repassar os custos.
OBS: É terrível quando antes, no meio da viagem, ou após, você constata que tem que pagar alguma coisa que não foi combinado, bem esclarecido ou que ficou subentendido. Também não gosto quando o guia manda os custos e não especifica o que está sendo cobrado, isso depois de demorar meses para apresentar uma planilha.

5 - Estudar, previamente, a lista de lifers de cada cliente de modo a equalizar o grupo.
OBS: O melhor que o guia pode fazer é focar naquilo que é lifer pro grupo todo, pois se focar nos lifers de um só membro do grupo, a coisa poderá causar rancor no restante. E outra coisa que observei em alguns, todos pedem a sua lista de lifers, mas sequer abrem ou imprimem e ficam te perguntando na hora se é lifer pra você...juro que esse tipo merece um tapa "nazoreias"...kkkkkk

6 - Nunca mudar o roteiro combinado sem consultar o cliente
OBS: Dispensa comentários

7 - Dedicar 100% da atenção para o cliente de modo que ele saia mais do que satisfeito
OBS: É muito desagradável você estar fotografando e o guia pedir silêncio porque ele vai gravar a vocalização, exceção se for ele usar de imediato pra benefício do próprio grupo. Além disso ele deve evitar uso de celular para conversas particulares, nem que for atender o Papa querendo abençoar seu dia.

8 - Usar câmera fotográfica apenas com anuência do cliente (e com moderação, sem atrapalhar, caso receba autorização).
OBS: Lembrar que está prestando serviço, o cliente pode até ser seu amigo, mas quem está passarinhando é ele e não você. Isso vem sendo tema de recorrente reclamação entre alguns amigos. Já ouvi estórias escabrosas. Tem guia que sabe a hora que pode usar sua câmera sem prejuízo do cliente, outros não. Tem passarinheiros que não se importam, mas não faça por inferência, consulte o cliente sempre e se um do grupo não quiser, não parta do princípio que a maioria vence.

9 - Dar atenção para todos do grupo de forma equilibrada.
OBS: Nunca privilegiar uma das pessoas em detrimento do resto, mesmo que seja seu amigo de infância. Quer coisa mais chata do que ser preterido num grupo, ser deixado de lado, pra trás, ou ver o guia e um integrante do grupo lá na frente cochichando sabe se lá o quê.

10 - Estar atento às limitações e dificuldades de cada um, ajudando no que for possível.
OBS: Dispensa comentários

11 - Saber respeitar e se fazer respeitar.
OBS: Dispensa comentários

12 - Ser líder e auxiliar o grupo na hora da tomada de decisões.
OBS: Dispensa comentários

13 - Fazer um briefing à noite ou pela manhã antes de cada saída.
OBS: Dispensa comentários

14 - Ser pontual e exigir pontualidade do grupo.
OBS: Só atrasar e tolerar atraso se houver justificativa plausível. Se isso acontecer, procure esclarecer ao grupo o que aconteceu.

15 - Manter a calma e o bom-humor.
OBS: Mesmo se tiver vontade de estapear o fulaninho criador de casos. Coloque ele na sua black-list depois do fim da passarinhada, mas na hora não faça nada que possa se arrepender depois.

16 – Saber o nome popular e científico de cada bicho para que o cliente não fique boiando.
OBS: Eu tenho uma dificuldade enorme de guardar nomes científicos e fico possessa quando o guia aponta aquele estrupicinho pousado no fio dizendo, olha lá o Gampsonyx swainsonii, ao invés dizer, tem um gaviãozinho pousado ali. E lógico que o inverso deve existir também...eu apenas imagino, pois nunca viajei com um parceiro que só soubesse nome científico.

17 - Ajudar o grupo a manter silêncio quando necessário.
OBS: Coisa desagradável aqueles dois amigos que não param de contar causos, nem na hora que o guia está chamando a ave, e você faz um psiu pra eles pararem e eles te olham com vontade de te esganar. Acho que antes disso acontecer o guia tem que pedir silêncio, pedir que aguardem sem falar ou se movimentar, melhor, até sem respirar kkkkkkkkk

18 - Ser firme quando necessário, porém sempre com educação.
OBS: Dispensa comentários

19 - Controlar e posicionar o grupo de forma que todos obtenham as melhores fotos.
OBS: Evite que os mais afoitos se movimentem demais e espantem a ave, provocando mal estar no grupo.

20 - Colocar sempre o bem estar da ave em primeiro lugar.
OBS: Jamais abusar do playback, nem se o cliente solicitar de joelho.

21 - Jamais desrespeitar ninhos ou colocá-los em risco.
OBS: Nem que for só pro melhor amigo fazer "aquela" imagem.

22 - Manter e ajudar os clientes a manterem distâncias mínimas da ave.
OBS: Nunca tocá-la pra mostrar como ela é boazinha e é o bonzão do pedaço.

23 - Ter conhecimento de aves, bom ouvido e conhecimento do local.
OBS: Nunca perguntar ao cliente que ave é aquela, pra que lado é o caminho ou mentir sobre uma espécie que não sabe qual é.

24 - Saber o que fazer em caso de acidente com animais peçonhentos, ataque de animais, quedas, torções, fraturas, mal estar súbito, etc.
OBS: Ter sempre maleta de primeiro socorros ao alcance – não imaginei ao escrever esse item, que ia necessitar desse material logo em seguida. Num próximo post eu conto o que houve e porque tive que passar uma tarde numa UTI em observação.

25 - Fazer fotos do making of (mesmo com o celular).
OBS: É legal pro cliente e funciona como propaganda positiva - geralmente uso essas fotos no meu perfil ou aqui no blog quando faço o trip report.

26 - Somente postar aquela foto espetacular que tirou junto e igual a do cliente, após o mesmo postar.
OBS: Considerar um prazo razoável e na dúvida perguntar pro cliente se já pode postar.

27 - Sempre que possível fazer lista no e-Bird e compartilhar com o grupo.
OBS: Dispensa comentários.

28 - Nunca falar mal dos clientes ou de outro guia para quem quer que seja ou pelas redes sociais.
OBS: Já ouviram dizer que matos tem “óleos” e paredes tem ouvidos?

29 – Não confundir trabalho com amizade.
OBS: Jamais ficar achando que o cliente é como se fosse seu melhor amigo e por isso tem obrigação de te contratar em todas as viagens que ele fizer.

30 - Praticar os bons princípios da Ética, bem como o contido no Código de Ética dos Observadores de Aves.
OBS: Não apenas no discurso.

E por fim o princípio mais importante no ser humano...


Bom, acho que disse um bocado. Por fim vou finalizar com uma frase que enviei pra uma amiga outro dia:

"As estradas são curtas demais para o nosso desejo de explorar o mundo. Temos muito chão pela frente. E muitos passarinhos lindos para nossos olhos e lentes se deslumbrarem. Que os bons ventos nos levem."



domingo, 19 de fevereiro de 2017

O espírito pioneiro é o que nos une sob o feitiço da ... Patagônia!!!!!

Eu gosto de viajar. Sair da minha rotina cotidiana é fundamental para eu não "entrar em parafuso". Além de me manter estável emocionalmente, viajar leva minha alma a um mundo novo. Novas experiências vão se descortinando frente aos meus olhos. É viver um sonho acordada...e sonhar é delicioso, como eu disse a uma amiga outro dia: sonhar é flutuar nas mãos do destino. Ao postar uma foto outro dia, resumi meu pensamento assim: "Sonho ao olhar o horizonte! Penso na aventura e desventura de procurar dentro dos meus sonhos quem eu sou verdadeiramente. Faço uma reflexão filosófica e de autoconhecimento. Em pensamento, tomo resoluções. Sou um ser "desejante". Quero muito colocar em prática tudo que meus pensamentos arquitetam. E assim eu levo a vida, ou será que é ela quem me leva?



Sim, é ela quem me leva ... e a muitos lugares. Porém há lugares especiais. Há um lugar que nos conecta, integra e unifica com a natureza, nos desvincula das nossas percepções sem distorcer o funcionamento da realidade. Esse lugar se chama ... Patagônia.

Assistindo alguns documentários no Canal BBC Earth sobre vida selvagem, deparei-me com três episódios chamados Wild Patagônia, com imagens maravilhosas, cujo texto inicial, dizia assim: "Em algum lugar remoto do planeta há uma selva sul-americana. Nessas paisagens extremas habitam animais estranhos e maravilhosos. Dos picos das Cordilheiras dos Andes, passando pela estepe seca e deserta até litorais banhados por águas que estão entre as mais violentas do mundo. Viver aqui exige coragem e determinação. Há oportunidades incríveis para alguns. Para outros é batalha pela sobrevivência. O espírito pioneiro é o que os une sob o feitiço da ... Patagônia". E esses episódios passaram a povoar meu imaginário desde então...

Eu já conhecia um pouquinho da Patagônia quando estive em 2010 (Ushuaia/Punta Arenas navegando) e 2014 (El Calafate), mas queria conhecer as estepes secas e desertas e seus animais estranhos e maravilhosos. Comecei a traçar planos. Os amigos Viviane de Luccia e Alejandro Olmos (guia competentíssimo) resolveram encarar e explorar esse novo roteiro comigo. Agora você vai poder acompanhar um pouco dos quase 4 mil km que percorremos nesse lugar incrivelmente mágico. 

Nosso roteiro contando só a rota principal, sem contar as estradas secundárias que percorremos.

Vamos só combinar, vou chamar de lifer espécies novas que nunca registrei e que poderiam ocorrer também no Brasil, com o nome popular aqui adotado (e-Bird ou Wikiaves). As espécies que não se enquadram nesse perfil receberão nome em inglês e/ou espanhol. Todas terão nomes científicos. Ao fim de cada relato diário tem o link para as listas (com fotos) no meu perfil no e-Bird.

24/01/17 (terça-feira)

Eu e Viviane saímos 6.45h do Aeroporto de Cumbica. Receosa por voar com as Aerolíneas Argentinas, posso dizer que a experiência foi muito boa. A escala em Buenos Aires foi bem tranquila. Chegamos no horário previsto em Comodoro Rivadavia. Esta cidade é considerada a capital nacional do petróleo. Situada na costa do Golfo San Jorge, na província de Chubut, é uma das cidades produtoras de energia mais importantes da Argentina e conta com uma indústria mecânico-metalúrgica de alta qualidade procedente de sua tradição petroleira. Possui também o maior parque eólico da América do Sul e aposta no desenvolvimento de energias limpas e renováveis para a proteção do meio ambiente.

Alejandro já nos esperava. O dia estava bonito, fazia um gostoso calor. A fome de passarinho era tanta que nem pensamos em almoçar. Fomos direto para Rada Tilly, em busca do lindo Mergulhão-de-orelha-amarela (Podiceps occipitalis). Lá chegando, vimos muitos bichos aquáticos. A laguna era bem grande, por isso os bichos ficavam um pouco distante. De repente vimos um pequeno bandinho de mergulhões. Eles se aproximaram o suficiente para fazermos fotos bonitas. Depois vimos um bando grande mais ao longe, mas não se aventuraram a chegar mais perto. Foi lifer para a Viviane e "melhoraifer" para mim. Na cerca ao lado da laguna, um Quiriquiri (Falco sparverius) deu show. Além disso fizemos outros bichos bem interessantes.

Viviane e eu
Mergulhão-de-orelha-amarela (Podiceps occipitalis)
Quiriquiri (Falco sparverius) 
Após começarmos com sucesso a nossa expedição seguimos em direção ao sul. Alejandro, com seus olhos de águia, avistou uma revoada ao longe, na beira da praia. Era um ninhal de Trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea). Havia milhares de aves, um espetáculo deslumbrante. Iam e vinham do mar com peixinhos no bico para os gulosos filhotes. Os que estavam no chão não se importavam com as pessoas transitando pelo local. Havia muitos turistas também interessados na movimentação. Eram muitos ovos e filhotinhos recém-nascidos espalhados. Tinha que se andar com extremo cuidado. O ninhal se estendia por mais de 1 km2. 

Eu, perdidona no meio de tantas aves
Alejandro Olmos e Viviane de Luccia
Levando o lanchinho - Trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea) 
Aguardando o lanchinho - Trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea) 
Filhote de Trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea)
Na praia havia um bando lindo de Imperial Shag ou Imperial Cormorant (Phalacrocorax atriceps). Fizemos bonitas fotos do bando. Ainda avistamos Piru-piru (Haematopus palliatus) e o primeiro pinguim da viagem, um perdido Pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus).

Imperial Cormorant (Phalacrocorax atriceps)

Piru-piru (Haematopus palliatus)
Pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus)

Continuamos nosso caminho e chegamos na simpática localidade de Caleta Olivia, onde fizemos nossa primeira pernoite. Escolhemos um hotel de frente pro mar chamado Costanera Del Sur. Eu recomendo. A luz na Patagônia é apenas a melhor do mundo. Passava das 19:30h e ainda podíamos clicar sem estresse. Na frente do hotel, a praia, com maré baixa, permitia observar uma grande quantidade de aves "ciscando" nas pedras. Havia batuíras, maçaricos, piru-piru, gaivotas e até mesmo quero-quero. Fiz meu primeiro lifer da viagem: Maçarico-de-bico-fino (Calidris bairdii). Jantamos no próprio hotel, pra poder acordar cedo no dia seguinte e prosseguir viagem.

Maçarico-de-bico-fino (Calidris bairdii). 
Veja a lista no e-Bird com fotos aqui:


25/01/17 (quarta-feira)

Após o café da manha, saímos de Caleta Olivia percorrendo a Ruta Nacional 3. No caminho, o Alejandro parou para observarmos uma colônia de leão-marinho-da-patagônia (Otaria flavescens), na expectativa de vermos a Pomba-antártica (Chionis albus). Nunca imaginei ver tantos bichos assim juntos. Pombas não havia nenhuma, mas gaivotas - Dolphin gull (Leucophaeus scoresbii), havia um montão. Foi meu "momento nat geo". Emocionei demais.

"momento nat geo"

"momento nat geo"

Dolphin gull (Leucophaeus scoresbii), 

Seguindo adiante, paramos diversas vezes na beira da estrada para clicar alguns bichos que eu tinha muita vontade de ver, como um tipo de perdiz de penacho, a Elegant crested-tinamou (Eudromia elegans). Vimos também Gavião-de-costas-vermelhas (Geranoaetus polyosoma) e muitas "eminhas" - Lesser rhea (Rhea pennata). E pude fazer mais um lifer, a Agachadeira-mirim (Thinocorus rumicivorus). De presente, ainda vi um Grande-Tatu-peludo - Large Hairy Armadillo ou Big Hairy Armadillo (Chaetophractus villosus).
 
Ruta Nacional 3

Agachadeira-mirim (Thinocorus rumicivorus)

Elegant crested-tinamou (Eudromia elegans)

Large Hairy Armadillo ou Big Hairy Armadillo (Chaetophractus villosus). 

Chegando em Porto Deseado, fomos direto contratar um passeio de barco para ir à uma Pinguinera. Na entrada da Darwin Expeditions, um savacu jovem ou Socó-dorminhoco (Nycticorax nycticorax) tirou onda de modelo e fez caras e bicos pras minhas lentes.
 
Socó-dorminhoco (Nycticorax nycticorax) 
Em seguida almoçamos e fomos descansar um tiquinho no Hotel Los Acantilados.  
 
Almoço substancioso

Após um delicioso "sono da beleza", partimos para um lugar conhecido por lá como "La ría Deseado". La ría Deseado se forma na foz do rio Deseado. É um estuário de grande importância biológica, por isso foi declarado Reserva Natural Provincial. Na sua margem norte está localizada a cidade de Puerto Deseado. Uma ría é um antigo leito fluvial ocupado pelo mar. É um local cheio de canais, bem intrincado para andar, pois possui margens escarpadas, 40 km de extensão e muitas estradinhas com entroncamentos. Graças ao Alejandro fizemos uma exploração bem legal do lugar, por terra. 

La ría Deseado 

Eu, procurando uma coruja nas entranhas da ría Deseado 

Nosso objetivo maior era encontrar os Cormorán Gris ou Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi). E encontramos. Nossa! Para mim foi um dos bichos "top" da viagem. Lindos de morrer. Foi já no fim do dia. O vento estava bem cortante. Vimos bem de pertinho o Blackish oystercatcher (Haematopus ater), primo próximo do nosso piru-piru. De acordo com o Alejandro, ele já tem sido avistado no Uruguai, e em breve deverá aportar as praias e estuários do sul do Brasil. Questão de tempo.
 
Eu e Viviane clicando os Gaimardi - Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi)

Eu clicando os Gaimardi - Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi)

Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi)

Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi)

Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi)
Blackish oystercatcher (Haematopus ater) 
Ah! O vento patagônico...esse é de te elevar aos céus... quisera ter asas para ele me levar bem para o  alto. E lá de cima, planar como fazem os condores e urubus.


Viviane, Eu e Alejandro

Retornamos pra Puerto Deseado ao cair da noite. Do pátio do Hotel Los Acantilados pude apreciar um pôr-do-sol fantástico.


Saímos para jantar num restaurante chamado Puerto Cristal Parrila-Mariscos-Trattoria, cuja comida era muito boa, mas o garçom era um porre, mal educado e carrancudo. Detesto gente assim.

Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:


26/01/17 (quinta-feira)

Nosso passeio de barco com a Darwin Expeditions estava previsto para 9:00h.  Navegaríamos até a "Isla Pingüino", localizada na sudeste de Puerto Deseado, mais ou menos uns 25 km de distância. Esta ilha foi declarada um Parque Marinho por ser um dos lugares de maior biodiversidade marinha da Patagônia. Existe nela a única colônia de Pinguim-de-penacho-amarelo (Eudyptes chrysocome) de toda a costa patagônica. Na ida, a guia Rossana fez as recomendações de praxe e ressaltou os cuidados que devíamos ter ao desembarcar e caminhar pelos caminhos cheios de ninhos e pinguins, bem como se livrar de prováveis ataques de skuas (mandriões).

... o lendário farol em ruínas... 

O barco que nos levou

Fizemos um pit-stop para apreciar uma colônia de leões-marinhos e para nossa alegria, eu e Viviane fizemos mais um lifer, finalmente a Pomba-antártica (Chionis albus) deu o ar da graça. Havia Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi) com céu azul ao fundo de doer os olhos e muitos Magellanic cormorant (Phalacrocorax magellanicus).

Pomba-antártica (Chionis albus)

Red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi)

Magellanic cormorant (Phalacrocorax magellanicus)

Na trilha até os penachudos havia muitos Pinguins-de-magalhães (Spheniscus magellanicus), inclusive filhotinhos esbanjando fofurice. 

Pinguins-de-magalhães (Spheniscus magellanicus)

Pinguins-de-magalhães (Spheniscus magellanicus)
Eu, fascinada, mas morrendo de calor

E tínhamos que tomar cuidado também com o ar, pois sofríamos ataques aéreos de mandriões-chileno (Stercorarius chilensis) e antártico (Stercorarius antarcticus). Davam rasantes sobre nossas cabeças e vinham direto atacar os nossos rostos e barrigas. Tínhamos que nos defender levantando as câmeras. A Viviane tentou registrar esses momentos, mas são muito ligeiros.

Eu sofrendo um ataque...
Me encolhendo toda, quando o "torpedo" descia em minha direção

mandrião-chileno (Stercorarius chilensis) e mandrião-antártico (Stercorarius antarcticus)

O Blackish oystercatcher (Haematopus ater) parecia até domesticado de tão perto que nos deixou chegar. Pude melhorar a foto do Maçarico-de-bico-fino (Calidris bairdii) e ainda fazer uma foto com as duas espécies de mandriões da ilha, mostrando as diferenças de um pro outro. Havia também muitos Gansos-de-magalhães (Chloephaga picta).

Blackish oystercatcher (Haematopus ater) 

mandrião-chileno (Stercorarius chilensis) e mandrião-antártico (Stercorarius antarcticus)

Mas o deleite todo foi ver os "penachudos" - Pinguim-de-penacho-amarelo (Eudyptes chrysocome) ... ai (suspiro). Como foi delirante fotografá-los tão de pertinho, mesmo sob um calor escaldante de 35° e a guia da Darwin incomodando o Alejandro, porque eu e Viviane sempre ficávamos pra trás, clicando "só mais um pouquinho". Ela ficava o tempo todo pedindo pra gente se apressar, mas não tinha jeito, a gente até que tentava, mas quem conhece a gente, sabe que não resistimos a tanta fofurice.
  
Eu, clicando os "penachudos"

Pinguim-de-penacho-amarelo (Eudyptes chrysocome) 

Filhotes de Pinguim-de-penacho-amarelo (Eudyptes chrysocome) 

O passeio dura 6 horas, servem um lanchinho, água e suco. No retorno pudemos apreciar golfinhos (toninhas) nadando ao redor do barco.

Após desembarcar, ainda clicamos alguns "patinhos" no Puerto Cristal, ao lado do restaurante do garçom chato. Lindas Capororocas (Coscoroba coscoroba), uma família inteira de Marreca-oveira (Anas sibilatrix) e muitas Marrecas-parda (Anas georgica) desfilaram sob a mira das nossas lentes.
 
Capororoca (Coscoroba coscoroba)
Marreca-oveira (Anas sibilatrix)

Marrecas-parda (Anas georgica)

Resolvemos dar uma última passadinha na Ría Deseado e tentar mais uma vez ver a Lesser Horned Owl (Bubo Magellanicus), mas não logramos êxito. Seguimos em direção ao sul avistando muitos guanacos e "eminhas" - lesser rhea (Rhea pennata). Havíamos parado algumas vezes para fotografar a Agachadeira-mirim (Thinocorus rumicivorus). De repente, eu digo, "volta, volta, volta, eu vi bichinhos no acostamento". E tinha sim, um super lifer desejado pela Viviane: a Batuíra-de-papo-ferrugíneo (Oreopholus ruficollis). Foi muito gostoso proporcionar esse presente para minha amiga e grande companheira de viagem.
 
Agachadeira-mirim (Thinocorus rumicivorus)

Batuíra-de-papo-ferrugíneo (Oreopholus ruficollis)

E continuando a viagem, eu queria mesmo era fazer guanacos pulando a cerca ou no horizonte com o por do sol. Achamos um bando e toca esperar eles pularem a cerca. Detalhe: a cerca havia sido derrubada e os pulinhos eram de 20 cm, no máximo 50. he he ehe. Mas o pôr-do-sol eu consegui.

Guanacos saltando

Guanaco com filhote mamando

Guanaco ao pôr-do-sol
Guanaco ao pôr-do-sol

A gente ia dormir em uma localidade chamada Três Serros, que eu pensava ser uma cidade, porém não passava de um aglomerado, composto de um hotelzinho estilo filme Bagdá Café, posto de gasolina, restaurante e conveniência. Nem igreja tinha, o que gerou zoação comigo até o final, pois eu disse que vilinha que se preze tem que ter igrejinha. Estava muito quente e lá nem se cogita em ar condicionado, é sempre calefação e por isso dormimos com janela aberta, local térreo, imagina o que isso significa para uma paulista. Acordava no meio da noite, olhava a janela aberta com desconfiança, fechava os olhos, e pedia pro anjinho da guarda me guardar. Heheheheheh

Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:


27/01/17 (sexta-feira)

E lá vamos nós novamente. Tomamos café, compramos guloseimas e toca pra frente rumo à Porto San Julién. Saímos por volta de 8.33h. Nesse "meio tempo, o tempo mudou". Esfriou e nublou. Coisas da Patagônia. Isso não foi o pior. Pior foi chegar num piquete, onde puseram pneus a queimar no meio da estrada. Ficamos algum tempo parados esperando liberarem. Haja paciência. Enfim seguimos para nosso destino, com chuva e frio, mas eis que depois o tempo abriu (Santa Clara é minha protetora, sempre). Além desse tipo de coisa na estrada, temos que tomar muito cuidado com guanacos e eminhas nas pistas...
 
Piquete
Foto feita dentro do carro em movimento

A Ruta Nacional 3 é sempre um lugar cheio de bichos, principalmente de belos exemplares de Gavião-de-costas-vermelhas (Geranoaetus polyosoma). Fiz a foto mais linda dessa espécie e que vai virar quadro em casa. Ainda vimos Falcão-de-coleira (Falco femoralis) e Lesser rhea (Rhea pennata). Íamos de olho no acostamento, pois a gente queria mesmo uma espécie muito especial: Gaúcho-chocolate (Neoxolmis rufiventris), que durante a viagem toda sequer deu as caras.
 
Gavião-de-costas-vermelhas (Geranoaetus polyosoma)

Chegamos em Puerto San Julién e fomos até um local lotado de bichos. Um lugar amplo, que tem muito a ser explorado. 


Havia uma variedade imensa de aves. Capororoca (Coscoroba coscoroba), Crested duck (Lophonetta specularioides), Mergulhão-grande (Podiceps major), Flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis), Biguá (Phalacrocorax brasilianus), Imperial cormorant (Phalacrocorax atriceps), Socó-dorminhoco (Nycticorax nycticorax), Piru-piru (Haematopus palliatus), Blackish oystercatcher (Haematopus ater), Magellanic oystercatcher (Haematopus leucopodus) e Maçarico-grande-de-perna-amarela (Tringa melanoleuca), e outros pequeninos que você pode conferir pelas listas linkadas abaixo. 

Diversas aves
Imperial cormorant (Phalacrocorax atriceps), 

Imperial cormorant (Phalacrocorax atriceps), 

Pelas normas ornitológicas da Argentina, nós "laifamos", só que não, o que pensamos ser um Maçarico-galego (Numenius phaeopus), na verdade era um Maçarico-de-bico-torto (Numenius hudsonicus), que não era novidade pra nenhuma das duas. Mudanças ocorridas na classificação do Brasil (elevação de subespécie à espécie), ainda não confirmada pelo South American Classification Committee – SACC. Pelo menos foi o que entendi. Bom, antes de constatar o equívoco, o suposto maçarico-galego rendeu uma bela comemoração com cerveja especial e tudo mais, no Naos Restaurant em Puerto San Julién.

maçarico-galego/maçarico-de-bico-torto (Numenius phaeopus/hudsonicus)

Comemorando ...

Em Comandante Luis Piedrabuena, tentamos ver se achávamos alguns bichos e nada. Fomos visitar o Parque Nacional Monte León. Bastante árido e com lindas paisagens, mas quase nenhuma ave interessante. Clicamos de longe o Cinnamon-bellied ground-tyrant (Muscisaxicola capistratus) e um bandinho de Patagonian yellow-finch (Sicalis lebruni) deu mole.
 
Parque Nacional Monte León

Paisagens surreais

Cinnamon-bellied ground-tyrant (Muscisaxicola capistratus) 

Patagonian yellow-finch (Sicalis lebruni)

Seguimos para Rio Gallegos, onde nos hospedamos no Hostel Oviedo. A gente procurava por hospedagem no GPS, uma vez que viajamos com direção definida, mas paradas indefinidas, sem hora para sair ou chegar, sendo assim não fizemos nenhuma reserva. Esse Oviedo não era lá aquelas coisas, mas deu pra descansar. Saímos pra comer uma pizza e essa estava deliciosa. Só não guardei o nome do lugar.

Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:

28/01/17 (sábado)

Levantamos cedo e fomos procurar aves por uma estradinha de chão árida e cascalhada, mas que poderia nos mostrar muitas espécies novas, a RN 1, Estrada Del Fin Del Mundo (não tinha nome mais adequado) pertencente ao município de Güer Aike. 

Agachadeira-mirim (Thinocorus rumicivorus)

Lesser rhea (Rhea pennata) 

Ela nos levaria de volta à RN3 e consequentemente à balsa, cuja travessia nos faz entrar e sair do Chile pra se chegar à Ushuaia. Ocorre que poderosos "senhores feudais" simplesmente "privatizaram" a dita entrada que ligaria uma à outra, colocando uma porteira no local. Isso nos fez retornar por onde viemos, perdendo um tempo precioso. E não bastasse isso, prepare-se para a burocracia em 4 passos (leia-se 4 guichês diferentes em cada uma das aduanas). E, sim, você tem que passar por quatro aduanas. Sair da Argentina, entrar no Chile, atravessar de balsa (depois de uma espera sei lá de quanto tempo), depois sair do Chile e entrar novamente na Argentina. Dizem que se o carro for alugado, a burocracia aumenta. Não sei se a demora era devido ao final de semana, ou se é sempre assim, mas pareceu uma eternidade, quase me fazendo arrepender por ter ido para lá e não ter retornado de Rio Gallegos. 

Na parte chilena pegamos 40 km de cascalhos poeirentos e lotado de caminhões (em breve será pavimentada - obras já iniciada). Dureza. Com isso, a noite chegou e não conseguimos chegar a Ushuaia. Dormimos em Rio Grande, num lugar bem aconchegante, espaçoso e barato. Pelo menos isso compensou. Se tinha alguma ave? Sim, até teve listinha.
 
Transbordador=balsa
Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:


29/01/17 (domingo)

Logo cedinho, partimos de Rio Grande para Ushuaia. O caminho no início era árido, cheio de fazendas, mas ao nos aproximarmos de Ushuaia a paisagem começou a mudar até ficar deslumbrante, porém bem mais frio.

Paradinha no Rio Ewan Sur - Rio Grande

Paradinha no Rio Ewan Sur - Rio Grande

Quase em Ushuaia

Beleza sem igual - bosques de lengas

Uma selfie pra variar...

Chegando em Ushuaia, clicamos um Petrel-gigante (Macronectes giganteus) nadando tranquilamente na orla. Pausa para fotinha com bandeira brasileira cedida gentilmente por motociclistas roraimenses super gracinhas. O frio nos direcionou a uma comidinha substanciosa. Pedimos cordeiro no almoço com direito a lifer de cerveja.

Petrel-gigante (Macronectes giganteus)

 
Pausa para fotinha com bandeira brasileira, se o vento deixar...

Lifer de cerveja

... cordeiro

Na parte da tarde fomos até o Parque Nacional Tierra del Fuego, situado a 12 km da cidade de Ushuaia. Logo no início clicamos Austral parakeet (Enicognathus ferrugineus). O destaque ficou para o Cisne-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus), um casal e dois filhotes nadavam tranquilamente num lago, e sentadas, tendo diante uma paisagem digna de uma tela de Monet, pudemos clicar até enjoar (se é que isso é possível pra duas taradas por aves e fotografia como eu e a Viviane). Outra espécie bonita de clicar foi o Flying steamer-duck (Tachyeres patachonicus).
 
Eu e Viviane clicando os quatro Cisne-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus)
Cisne-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus)
Eu clicando o Flying steamer-duck (Tachyeres patachonicus)
Flying steamer-duck (Tachyeres patachonicus)

Para atrair pequenas aves o Alejandro disparou a vocalização de uma espécie de caburé, a Austral pygmy-owl (Glaucidium nana) - adorei o nome científico. E não é que o próprio bichinho veio conferir. Só não deu fotão. Também clicamos um monte de aves pequenas, como o Dark-bellied cinclodes (Cinclodes patagonicus), Black-chinned siskin (Spinus barbatus), Austral blackbird (Curaeus curaeus), Austral thrush (Turdus falcklandii) e Thorn-tailed rayadito (Aphrastura spinicauda).

Dark-bellied cinclodes (Cinclodes patagonicus)

Austral blackbird (Curaeus curaeus)

Cabe ressaltar o charme e a fotogenia do senhor Zorro Colorado/Culpeo Fox (Lycalopex culpaeus). Não, não é personagem de filme de bang-bang, apenas uma raposinha patagônica, muito arisca em todos os lugares que a avistamos, mas que nesse dia, parecia estar mais com sede e fome do que preocupada com nossa presença.
 
Culpeo Fox (Lycalopex culpaeus)

Culpeo Fox (Lycalopex culpaeus)

O dia não podia terminar mais lindo, com um arco-íris pra colorir ainda mais nossa vida. E assim espero que continue.

Patagônia e suas muitas faces...
Olha a carinha de felicidade das duas...
Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:


30/01/17 (segunda-feira)

Resolvemos tentar ver pinguins-rei com a Rumbo Sur. Visitaríamos, durante 6 horas de navegação pelo Canal de Beagle, a Isla de Los Lobos (leões-marinhos), Ilha dos Pássaros, Farol Les Eclaireurs e a Isla San Martillo (pinguinera). 

Farol Les Eclaireurs

Ilha dos Pássaros

Ansiosa por ver o pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus), torcendo muito por um bom tempo, iniciamos a navegação em meio a um vento bem frio. Mas Santa Clara me protegeu, como sempre e o tempo estava bastante firme. Enquanto quase todos permaneceram dentro do aconchego e calorzinho da cabine do barco, nós três, após um gostoso cappuccino, permanecemos o tempo todo do lado de fora, buscando as aves que passavam por nós. 

Só na moleza...

E lá vamos nós...os pinguins que nos aguardem...

E que delícia quando chegamos à Isla Martillo, de longe eu vi que havia muitos Gentoo penguin (Pygoscelis papua) em meio aos Pinguins (Spheniscus magellanicus). Mas faltava sua majestade... Eis que no meio daqueles milhares de “serumaninhos" saltitantes surgem dois (apenas dois!) Pinguins-rei (Aptenodytes patagonicus), deitados, eu diria até mesmo, prostrados de cansaço, no meião de tudo. Clic, clic, clic, e a Câmera não queria parar... Ai que vontade de descer que eu fiquei, juro. Retornamos com o sentimento de missão cumprida.
 
Pinguim (Spheniscus magellanicus)

Gentoo penguin (Pygoscelis papua)

Pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus)

Passamos a tarde entre compritas e passeios ao redor da orla buscando mais espécies. A gente queria a Pipixcan ou Gaivota-de-franklin (Leucophaeus pipixcan), mas só apareceu um bando de Gaivota-maria-velha (Chroicocephalus maculipennis), muito parecida com a primeira. As gaivotas Dolphin gull (Leucophaeus scoresbii) fizeram poses espetaculares para as nossas lentes. 

Um Kelp goose (Chloephaga hybrida) se exibia no mesmo lugar onde em março de 2010, fazendo fotos para a Revista Cavallino, eu o fotografei e coloquei na legenda um simples "ave na orla". Desconhecia quase tudo de aves. Na época, eu sequer cogitava que um dia eu seria uma "fanática e obsessiva" observadora de aves. E pra fechar o dia, vários “patinhos” passaram desfilando pelas minhas lentes, entre eles Marreca-colhereira (Anas platalea), Marreca-oveira (Anas sibilatrix) e o Crested duck (Lophonetta specularioides).
 
Dolphin gull (Leucophaeus scoresbii)

Gaivota-maria-velha (Chroicocephalus maculipennis)

Kelp goose (Chloephaga hybrida)

Marreca-colhereira (Anas platalea)

Marreca-oveira (Anas sibilatrix)

Para comemorar nada melhor do que um jantar com um dos seres saídos das profundezas do oceano mais famosos de todos: a centolla (Lithodes santolla), uma espécie de caranguejo gigante. Não é um prato baratinho, mas não deixe de experimentar pelo menos uma vez na vida.

Dormimos nesta noite foi o Hostel Rio Ona. Fomos muito bem atendidos. Ela nos ofereceu todo o conforto que necessitávamos para descansar e fazer o longo caminho de volta até Comodoro Rivadavia.

Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:


31/01/17 (terça-feira)

E toca o barco pra frente, digo, o carro. E lá vamos nós de novo passar por todo aquele trâmite burocrático. Eis que ao chegar à aduana argentina, a primeira delas, a Viviane descobre que não sabe onde colocou seu papelzinho de entrada (entrou com RG e não com passaporte). Lógico que uma viagem tão maravilhosa tinha que ter um momento de estresse. Olha mala, bolsa, bolsos, bolsinhas, pochetes, chão do carro e nada, também, um papelito mínimo, que mais parecia um reles comprovante de cartão de crédito. E o que fazer? Eu já imaginava, se fosse no Brasil, a gente teria a maior dor de cabeça, só que não, os agentes da aduana argentina foram hiper super mega compreensivos, olharam no sistema (sim eles tem sistema, mesmo no Fin Del Mundo) e nos liberam tranquilamente. O resto da "passagem" transcorreu sem transtornos ou longas esperas. Estava muito cansada, mesmo assim permaneci de vigília para ver se avistava o Gaúcho-chocolate (Neoxolmis rufiventris) ou o Gavião-cinza (Circus cinereus). Nada, nada! Alguns penosinhos pelo caminho, mas nada que merecesse destaque.

Dormimos em  Comandante Luis Piedrabuena, que meu cérebro me traia e insistia em dizer "quando mesmo chegaremos a Pedro Bueno?" Kkkkkkkkkkkk o que o cansaço não faz... he he he

Pernoitamos na Hosteria El Alamo, onde dou 10 para o atendimento e conforto. Já não posso dizer o mesmo do restaurante El Nano. Quando pedimos a conta, a moça (uma faz tudo do restaurante, ou era dona ou gerente), foi de total falta de clareza, pra não dizer desonestidade. Primeiro não trouxe a conta pra conferirmos, só mencionou o total bem acima do que eu calculei mentalmente. Inconformada, logo eu, uma virginiana nata. Conferi com o cardápio e o valor não fechava. Eu a intimei a se explicar e trazer a conta por escrito, o que ela fez demoradamente à mão e de cara feia. Primeiro ela cobrou um prato que não pedimos, segundo, ela cobrou os valores do que pedimos muito acima do que estava no cardápio. Eu reclamei e ela ficou se explicando de um jeito mais cara de pau do mundo, tipo, é que o cardápio estava desatualizado, etc. Cansada demais pra bater boca, eu paguei, virei as costas e saí de cara amarrada, contando até 10 pra não enfiar a mão na cara da sujeita. Então ela chamou o Alejandro e devolveu parte do que ela cobrara a mais. Se foi má-fé ou erro crasso, não sei, mas eu não recomendo esse lugar.

01/02/17 (quarta-feira)

Simbora, que ainda tem chão. Fomos em direção à Porto San Julién para tentar o Gavião-cinza (Circus cinereus). De repente o Alejandro pára o carro no acostamento e diz algo do tipo "mirem el "cinereus" en nuestro camino" (sim ele habla espanhol, pois é uruguaio He He eh). Desespero que sempre acompanha um avistamento de um lifer desejado, nem dei conta de desatar o cinto de segurança, ao vê-lo voar ao lado da minha janela, nem eu, nem a Vivi demos conta de fotografá-lo. Quando finalmente desci do carro, ele já ia longe, muito longe. Sabe aquela vontade de chorar que dá na hora, pois é, deu, mas fazer o que? Incompetência misturada com desespero e falta de sorte, dá nisso... 

Andamos um tempão na esperança que ele retornasse e nada. Alejandro, ah! Santo Alejandro! Disse-nos que conhecia um ponto provável dele aparecer. E lá fomos nós para uma estradinha de cascalho, beirando a costa e ... tcham tcham tcham tcham, eis que avistamos ele pousado no chão de longe, lifer garantido...mas nada de fotão. E lá se foi ele céu afora bem longe.

Gavião-cinza (Circus cinereus). 

Continuamos por este caminho e de repente ouvimos um indivíduo vocalizar, duas fêmeas, uma adulta e outra jovem. Desta vez pulei do carro correndo e me coloquei a postos. O Alejandro ligou o play-back e as duas quase pousaram em nossas cabeças...vieram prontamente e fizemos lifer com fotão. Lifer com foto bonita é igual ganhar na loteria sozinha.

Gavião-cinza (Circus cinereus)

Gavião-cinza (Circus cinereus) 
Viviane tão feliz da vida quanto eu...

De tão feliz, já estava até perdendo a linha eh ehheheheheh

Fechou com chave de ouro, né...bora seguir adiante. Acabou? Nãããooooooo.

Seguimos para Caleta Olívia onde novamente nos hospedamos no Costanera Del Sur. Mas antes demos uma paradinha pra se deliciar com a colônia de leões-marinhos novamente.

Leões-marinhos
Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:


02/02/17 (quinta-feira)

Levantamos cedo e fomos tentar mais um lifer: a Andorinha-do-sul (Progne elegans). E desta vez demos sorte, ela estava por toda a cidade. Demos uma última passadinha na Laguna Rada Tilly, já próxima de Comodoro Rivadavia. 

Andorinha-do-sul (Progne elegans)

O Alejandro "playbecou" o Lenheiro-de-rabo-comprido (Asthenes pyrrholeuca). Depois de mais de 15 minutos surgiram dois, chatinhos de doer, só ficavam embrenhados, dei sorte de uma hora um deles mostrar a carinha por milésimos segundos, suficiente pra um foco meia boca, ante a total falta de contraste e de bem longe. Mas valeu mesmo. Aliás, a viagem toda valeu. Geralmente, em viagem longa, nos últimos dias o cansaço bate tão forte que me dá uma vontade louca de voltar pra casa. Desta vez não, foi uma tristeza embarcar de volta, dava vontade de explorar mais e mais.


Carinha de feliz? Eu...ha haa ha hah aha Só...

Eu voltarei. El Macá tobiano, zampullín tobiano, o pimpollo tobiano (Podiceps gallardoi) nos aguarda, né Viviane e Alejandro?

Veja lista completa no e-Bird com fotos aqui:


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Por hora é o que tenho pra contar. Estou alguns relatos de viagens maravilhosas atrasados (Equador e Tour Costa do Nordeste em 2016). Ambos já começados e não finalizados. Então aproveitei as imagens e informações ainda quentinhas na "cachola" e resolvi escrever sobre esta viagem e publicar logo. É minha primeira grande viagem deste ano e merece destaque.

Só posso agradecer a amiga queridíssima e super "parça" nessa viagem, Viviane de Luccia. Espero que estejamos juntas em muitas outras ainda. Calma, tranquila, excelente observadora, é a rainha do Wikiaves, a mulher que detém o maior número de espécies que ocorrem no Brasil. E fica aqui um agradecimento especial ao amigo e grande guia Alejandro Olmos, que topou essa empreitada, sem ao menos saber o que enfrentaria com duas mulheres exigentes, que buscam lifers e já detém mais de 1.200 espécies registradas, das que ocorrem em território brasileiro. Conduziu-nos com sua costumeira maestria e paciência, bom humor e tranquilidade, dirigindo por quase quatro mil km, mesmo com febre alta e dor de garganta. (Viviane, que bom que levou remédios para isso - foi a salvação do Alejandro).

Eu digo sempre que a última viagem foi a melhor da minha vida e a próxima sempre superará. Será? Malas arrumadas pra Patagônia, desta vez chilena, numa empreitada bem diferente do que estou habituada. Vinte pessoas num navio, esperando pra ver baleias, enquanto euzinha quero mais é ver albatrozes, "patinhos", pardelas e petréis, e porque não baleias?

Espero que a Naná se conforme da "mamis" passar mais um tempo fora. Essa "serumaninha" de quase 18 anos é o amor da minha vida e tem que aguentar a minha ausência por longos períodos na vidinha dela.
 
Chegando no aeroporto de Cumbica
FIM
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