sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

II Festival do Papagaio-charão - Urupema - 2013

A primeira coisa que lembro sobre minha viagem à Serra Catarinense em abril de 2013 foi a brincadeira quando eu disse aonde ia: "Festival o quê? Papagaio-chorão? Mas para que você vai lá ver um papagaio-chorão?" Já imaginaram um papagaio-chorão?


 - Não, não é bem assim. Vou para Urupema/SC, cidade mais fria do Brasil, participar do Festival do Papagaio-charão. Charão e não chorão.
 
O Papagaio-charão  (Amazona pretrei) é uma ave típica do sul do Brasil. Também chamado de papagaio-da-serra ou simplesmente charão. É um dos menores papagaios brasileiros. Apresenta 32 cm de comprimento e tem 280g de massa corporal. Sua plumagem geral é verde, destacando-se a máscara vermelha, que nos adultos, se estende até a região posterior dos olhos. Também apresenta coloração vermelha no encontro das asas e das polainas das patas.

É uma espécie social, tem o hábito de reunir-se em bandos regularmente, para pernoitar, um pouco antes do pôr-do-sol.

Sim, e tem um festival só para ele. Algumas pessoas da cidade e região, aproveitando o período onde essa linda avezinha aparece aos milhares para se alimentar do pinhão - fruto do pinheiro-brasileiro (Araucaria angustifolia), criaram um evento específico para que as pessoas se reunissem e pudessem observá-los. O evento foi realizado pela segunda vez e devido ao sucesso, provavelmente será realizado todos os anos.

papagaio-charão  (Amazona pretrei)
Quem já esteve lá sabe do que estou falando. A revoada do papagaio-charão é algo fenomenal, surreal, tipo, um acontecimento que deixa a gente de queixo caído e olhos lacrimejantes de emoção.

Eu fui para Urupema na companhia do amigo Flávio Guglielmino. Fomos de avião até Florianópolis e alugamos um carro para percorrer os 200 km até Urupema. Combinamos com os amigos Jarbas Mattos e Guilherme Serpa que nos encontraríamos em Urupema. O Guilherme veio do Rio de Janeiro e se juntou ao Jarbas em São José dos Campos/SP. Foram para Urupema de carro. No caminho apanharam o Samuel e a Samantha. O amigo Guto Carvalho juntou-se ao grupo depois.

Eu e Flávio Guglielmino
24 de Abril de 2013 - quarta-feira

Como eu e Flávio saímos de São Paulo na quarta-feira bem cedo, pudemos aproveitar tranquilamente o caminho de Floripa até Urupema, registrando algumas aves pelo caminho.

Nós ficamos hospedados na Eco Pousada Rio dos Touros, onde uma pequena e simpática equipe, liderados pelo casal Fernando e Rose, nos recebeu. O céu estava limpo e a temperatura amena, nada de chuva, geada, neve ou frio...Santa Clara caprichou.

Um dos chalés da Eco Pousada Rio dos Touros
Eco Pousada Rio dos Touros
De cara, antes mesmo de chegar na Pousada, pudemos registrar a primeira e inesquecível revoada dos papagaios. Eu e Flávio, feito crianças abobadas com brinquedo novo, saímos pelo mato atrás do bando. Fizemos muitas fotos legais.

Após nos instalarmos na Pousada, ficamos clicando no comedouro e imediações. Uma festa para os olhos: bandos de saíra-preciosa, beija-flor-de-papo-branco, sanhaçu-papa-laranja, tiê-preto, sanhaçu-frade, tico-tico.  Só paramos quando os papagaios retornaram para o seu dormitório. Não tem como não ficar olhando para o céu e admirando e clicando esse belo espetáculo da natureza.

 Beija-flor-de-papo-branco (Leucochloris albicollis)
Saíra-preciosa (Tangara preciosa)
Revoada de Papagaio-charão (Amazona pretrei)
Depois de  um jantarzinho caseiro e apetitoso, já escurecendo, o Fernando levou-nos para corujar em seu indefectível fusquinha branco, dentro da propriedade. A corujinha-do-sul respondeu, mas a Coruja-listrada (Strix hylophila), maior e predadora da outra, apareceu, e com seu som gutural e assombroso, demostrou que quem reinava ali era ela. Lembro-me de sua vocalização ecoando no escuro como se fosse hoje.  De arrrepiar...

Coruja-listrada (Strix hylophila)
25 de Abril de 2013 - quinta-feira

Na manhã de quinta-feira, acordamos cedo para ver a saída do bando de charão. Depois, o Fernando, dono da pousada, nos mostrou alguns pontos legais para fotografar. Pudemos clicar um bando de charão pousado na altura dos olhos. Um show.

Papagaio-charão (Amazona pretrei)
Eu by Flávio Guglielmino
Vimos o Grimpeiro (Leptasthenura setaria), Curicaca (Theristicus caudatus), Quiriquiri (Falco sparverius), Encontro (Icterus pyrrhopterus), Maria-faceira (Syrigma sibilatrix), o Arapaçu-escamado-do-sul (Lepidocolaptes falcinellus) e finalmente minha primeira Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus).

Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus)
Lá pelas 11:00h da manhã, eu e o Flávio resolvemos subir até o Morro das Torres. Porém, antes, bem no sopé, clicamos um Carrapateiro (Milvago chimachima).

Em seguida avistamos a Noivinha-de-rabo-preto (Xolmis dominicanus), uma não, duas. Muito ariscas, quando a gente avançava um passo, elas se deslocavam para mais longe.

Noivinha-de-rabo-preto (Xolmis dominicanus)
Noivinha-de-rabo-preto (Xolmis dominicanus)
Enquanto admirávamos a paisagem ao redor surgiu um casal muito bonitinho, a princípio, de longe, parecia João-de-barro, mas fomos nos aproximando e vimos que eram diferentes. O engraçado é que fotografamos os bichinhos sem nem imaginar que era um lifer para os dois. A gente achava que podia ser o cochicho (Anumbius annumbi). Depois o Adrian Rupp, guia ornitológico, nos explicou que era um casal de Pedreiro (Cinclodes pabsti).

Pedreiro (Cinclodes pabsti)
Não vimos aves no topo do Morro. Mas lembrei da capa do disco do Pink Floyd quando avistei uma cena composta por bovinos preto & branco.


As atividades do Adrian com a equipe Terra da Gente cessaram na hora do almoço. Combinamos um mini-pacote para ele nos guiar no período da tarde. Foi uma festa. Fizemos lindas fotos e muitos lifers.  Arredio-oliváceo (Cranioleuca obsoleta), Peito-pinhão (Poospiza thoracica), Pintassilgo (Sporagra magellanica), Grimpeirinho (Leptasthenura striolata), Quem-te-vestiu (Poospiza nigrorufa), Choca-de-chapéu-vermelho (Thamnophilus ruficapillus), Bico-grosso (Saltator maxillosus), Sanhaçu-frade (Stephanophorus diadematus), Chimango (Milvago chimango), de novo a Noivinha-de-rabo-preto (Xolmis dominicanus).

Choca-de-chapéu-vermelho (Thamnophilus ruficapillus)
Grimpeirinho (Leptasthenura striolata)
O que chama a atenção nas serras catarinenses são as belas paisagens. É um colírio refrescante para os olhos poder admirar todo o verde que tem por lá. Um verdadeiro tesouro. Espero que  mantenham assim por muito tempo.


Logo no início da noite, fomos até o Morro do Combatente. Chegando lá, o Adrian chamou a corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae), que respondeu de imediato e pousou na nossa frente, cara-a-cara. Foi mega-show.

Corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae)
O Jarbas e a galera chegaram na quinta à noite. Ficamos no refeitório batendo papo. Uma bela lua encerrou nosso dia cheio de atividades. Fomos dormir porque sabíamos que para ver o bando de charão no dia seguinte, tínhamos que acordar muito cedo.


26 de Abril de 2013 - sexta-feira

Logo que amanheceu, lá estávamos todos nós preparados para a revoada dos papagaios. A lua insistia em ficar mais um pouco para poder assistir, de seu camarote privilegiado, o revoar de tantas aves...O céu, esplendoroso, se dividia entre tons de rosa e azul. Eu fiquei tentando flagrar um charão "atravessando" a lua, mas só consegui um esboço do que pretendia.



Aí foi a vez das aves mais baixas aparecerem para ser fotografadas por um bando de malucos, ávidos por passarinhos...


 Borralhara-assobiadora (Mackenziaena leachii) 
 Lente pouca é bobagem, né Junior HHattori?
Assim que a farra acabou, seguimos para Urubici, uma cidade vizinha, onde o Jarbas conhecia alguns lugares bacanas para fotografar. No caminho fotografei Tico-tico-da-taquara (Poospiza cabanisi), Bico-grosso (Saltator maxillosus)  e o Arredio-oliváceo (Cranioleuca obsoleta).

Arredio-oliváceo (Cranioleuca obsoleta)
Chegando em Urubici, pegamos a estrada que leva ao topo do Morro da Igreja. No caminho passamos pelo restaurante Cascata Véu de Noiva. É um lugar bem bonito e agradável. Aproveitamos para abastecer a barriga e fotografar pelos arredores. Conseguimos avistar Tiriba-de-testa-vermelha (Pyrrhura frontalis), Grimpeiro (Leptasthenura setaria), Trepadorzinho (Heliobletus contaminatus), Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) e o belo Pica-pau-dourado (Piculus aurulentus).

Pica-pau-dourado (Piculus aurulentus)
Trepadorzinho (Heliobletus contaminatus)
Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus)
Ao seguir adiante em direção ao topo do Morro da Igreja vimos Pedreiro (Cinclodes pabsti)  no chão na beira do asfalto. O Morro da Igreja pertence ao Parque Nacional de São Joaquim, localizado na divisa entre os municípios catarinenses de Bom Jardim da Serra, Orleans e Urubici. Com 1.822m, seu cume é o terceiro mais alto de Santa Catarina e o quinto da região Sul do Brasil, porém é considerado o ponto habitado mais alto da Região Sul do Brasil. As instalações do Segundo Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (CINDACTA II) da Força Aérea Brasileira (FAB) ficam no topo do Morro da Igreja.

A Pedra Furada é a atração mais conhecida do Parque Nacional de São Joaquim e fica junto às escarpas da parte sudeste do morro, podendo ser facilmente avistada do ultimo portão do Cindacta-Belvedere. Fomos presenteados por uma visão deslumbrante

Pedra Furada
Já no alto do morro, a quantidade de aves foi um pouco menor, talvez pelo vento excessivo. O Sabiá-do-banhado (Embernagra platensis) apareceu todo faceiro, o tico-tico-do-banhado (Donacospiza albifrons) tentou roubar a cena. 

Sabiá-do-banhado (Embernagra platensis)
Olha as duas espécies fazendo pose (Sabiá e Tico-tico)
A neblina começou a se espalhar sobre o morro e nós tivemos que desistir de procurar mais aves no alto. Ao descer ainda avistamos o Peito-pinhão (Poospiza thoracica) e Grimpeirinho (Leptasthenura striolata). No retorno, fomos conhecer a Pousada Kiriri-Ete, de uma amiga do Jarbas.Lugar bem bacana.

Retornamos à Urupema já bem tarde. Minha parceira de quarto, a  Raquel Colombo,  já havia chegado. Após o jantar, eu caí na cama de cansaço. 

27 de Abril de 2013 - sábado
   
No dia seguinte, apreciamos outro espetáculo dos verdinhos em sua revoada matinal. O sol nascendo e iluminando a serra fria hipnotizava. Coisa mais surreal do mundo.

Revoada de charão
 



Seguimos atrás dos papagaios-charão pela Bossoroca (adorei o nome), uma farra só. Um montão de gente correndo pra lá e pra cá. Era engraçado apreciar esse corre-corre. Um belo Chimango (Milvago chimango) fez pose bonita para chamar a atenção. Já o Pedreiro (Cinclodes pabsti) ficou de longe observando a movimentação.

Chimango (Milvago chimango)
Pedreiro (Cinclodes pabsti)
Retornamos à pousada e mais uma vez o encanto das coloridas saíras no comedouro prendeu nossa atenção por um breve período.

Saíra-preciosa (Tangara preciosa)
Da pousada fomos direto para a abertura do II Festival do Papagaio-charão. O evento foi bem estruturado, fruto do esforço das pessoas da comunidade e região. Muita gente compareceu de todas as partes do país. Conheci muitas pessoas e fiz novos amigos. O fotógrafo e amigo Dario Lins fez a abertura. Em seguida, o Guto Carvalho fez um belo e comovente discurso sobre as aves.

Dario Lins
Guto Carvalho
A turma toda
Flavio, Lesther Lins, Dario, Guto Carvalho e Eu
Flavio, Guto, Fernando, Eu, Rose, Lesther e Dario
Após a solenidade, e fotinhos com os amigos,  nós saímos atrás de passarinhos.  Fomos até o sopé do Morro das Torres, mas não avistamos as noivinhas por lá, apenas o pedreiro. 
Pedreiro (Cinclodes pabsti)
Como o Jarbas havia combinado com uma galera de Santa Catarina uma passarinhada depois do almoço, lá fomos nós para o Morro dos Combatentes tentar encontrar o Veste-amarela (Xanthopsar flavus), ave residente no sul de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, apenas. Treze pessoas, ao todo. Gente super legal, mas, como sempre acontece quando muita gente se junta, rola papo pra todo lado, muita diversão, alguns fazendo play-back ao mesmo tempo, cada um com seus próprios interesses e objetivos, aí já viu, o resultado. Poucos avistamentos interessantes e o Veste-amarela nem sombra.

Guilherme Serpa, Fernando Farias, Raquel, Flávio e Jarbas
Tico-tico-do-banhado (Donacospiza albifrons)
Mais para o final da tarde saímos em busca dos papagaios-charão novamente. Muitos, muitos mesmo. Tente calcular quantos aparecem por m2 na foto abaixo. E a melhor surpresa veio junto, bandos de Papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) pousados, que eu havia visto apenas no alto voando...Foi demais.

Bando enorme de charão
Papagaio-charão (Amazona pretrei)
Papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea)
28 de Abril de 2013 - domingo

O Jarbas propôs que no domingo fôssemos passarinhar guiados pelo Adrian. Talvez pelo fato que a cidade estava muito lotada, muita gente passarinhando e passando pelos mesmos lugares, os passarinhos não estavam tão animados.

Parte da turma clicando um passarinho
 Emily Rupp - a pequena observadora de aves
Mesmo assim, ainda rolou Grimpeirinho (Leptasthenura striolata), bem pertinho, o Arredio-oliváceo (Cranioleuca obsoleta) saiu melhor ainda nas fotos. E uma bela borboleta prendeu minha atenção.

Grimpeirinho (Leptasthenura striolata)

No período da tarde, logo após o almoço clicamos ao redor da Pousada Rio dos Touros. A Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) estava mais azul do que nunca. Um Pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus) batia num tronco procurando por almoço...

Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus)
Pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus)
Saímos com o Adrian novamente e o que me chamou a atenção foi uma plantação de maçãs com árvores carregadinhas, coisa linda de apreciar.

maçãs
Não demorou muito, ouvimos a algazarra dos charãos e junto o "roxinho". Nesse dia, o que mais gostei foi ver os Papagaios-de-peito-roxo (Amazona vinacea) de perto, se alimentando, fiquei um tempão só curtindo. Valeu e muito.
Papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea)
Terminamos a noite com um delicioso jantar e um gostoso bate-papo ao lado do fogão de lenha...


29 de Abril de 2013 - segunda-feira
E no dia seguinte, após um delicioso café de coador preparado pelo Fernando, dono da Eco Pousada Rio dos Touros, ele nos levou para ver, dentro da própria pousada, o Tapaculo-ferreirinho (Scytalopus pachecoi). Dizem que ele é difícil de sair no limpo, mas nesse dia ele deu mole, o difícil foi conseguir uma boa luz, estava muito sombreado e o bichinho é escuro, sem contraste...

Fernando preparando café
Tapaculo-ferreirinho (Scytalopus pachecoi)
Ficamos algum tempo curtindo o comedouro cheio dos já conhecidos beija-flores, sanhaçus e saíras coloridas, flores e borboletas. E após a despedida calorosa, já sabendo que a saudade ia bater, eu e o Flávio fizemos nossa viagem de volta a Florianópolis.






 

* Não podia comemorar o meu 500º lifer com uma ave menos especial do que o próprio motivo dessa viagem à Santa Catarina: o Papagaio-charão. Só posso agradecer de coração às pessoas que não mediram esforços para o evento acontecer: em especial ao Dario Lins, Fernando e Rose da Ecopousada Rio dos Touros. Agradeço a deliciosa companhia dos amigos que me cercaram, ajudando a diminuir o estresse de viver em uma megalópole como São Paulo.

* Vem aí o III FESTIVAL DO PAPAGAIO-CHARÃO 
Dias 03 e 04 de maio de 2014 - Urupema/SC.
Programe-se!
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2 comentários:

  1. Belíssimo relato da viagem... parabéns!!! Esse ano estarei com um grupo de amigos aqui do Rio de Janeiro participando deste festival, ficaremos de 01 a 04/05/2014 e espero ter as mesmas emoções que você descreve no seu blog. Grande abraço.

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  2. Belíssimo post Silvia! aproveitem bem a viagem pelo sul esse ano e voltem sempre! Abraços!

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